Vida de Sta. M M de Pazzi (Cap 13-14)

Vida de Sta. M M de Pazzi (Cap 13-14)

CAPÍTULO XIII

Vários ofícios desempenhados por Maria Madalena –

o seu governo prudente e sábio do juvenato e do noviciado

No mesmo dia, em que ela saiu do noviciado, para passar para o juvenato, tendo somente vinte anos de idade, Maria Madalena viu-se nomeada irmã externa, juntamente com outra monja mais idosa. Como já vimos estas duas monjas, deviam tratar diretamente das candidatas, que se apresentavam ao Mosteiro. Este ofício não lhe causou grandes afazeres, porque, durante aquele triênio, poucas foram as candidatas. A 4 de Outubro de 1589, ela foi nomeada assistente ou ajudante da Mestra de Noviças, Madre Evangelista Gicundi. A Santa aceitou esta nova incumbência, não sem algum temor, e por causa da importância deste ofício, por causa das suas dificuldades pessoais. Ela mesma encontrava-se, ainda, no meio daqueles cinco anos de tremendas provações. Por amor à obediência, ela não fez dificuldades. Além disso, era-lhe mais fácil, em virtude mesmo do ofício, entrar em contato diário com a Madre Evangelista, na qual ela tinha toda a confiança, como numa pessoa santa, dotada de todas as virtudes. Entre estas brilhavam e destacavam-se mais um grande amor de Deus e do próximo, uma devoção terníssima e filial à Virgem Maria, um grande zelo pela observância regular e uma profunda humildade e simplicidade. A uma grande prudência natural, esta Monja aliava muito conhecimento das coisas divinas.

Assim sendo, compreende-se facilmente que Maria Madalena, não obstante a sua profunda humildade, tinha gostado do seu novo ofício; porque este a tornava companheira duma madre tão perfeita. Em pouco tempo, porém, a discípula sobrepujou à mestra. Fiquemos agora, com Madre Maria Madalena, que nos deixou exemplos tão eloquentes de virtude e governo. A sua convivência com as noviças era tão cheia de bondade, caridade e amabilidade, que ela parecia mais uma irmã do que mestra delas. A sua intimidade provocava, por vezes, admiração. Interrogada pelos motivos deste seu proceder, ela respondeu que agia assim, para lavá-las ao amor de Deus. E acrescentava: “Já que fomos criadas por amor e para o amor, devemos retornar a nossa origem, pelos mesmos caminhos”. Apresentando-se, porém, uma ocasião, ela não se descuidava de dar repreensões ou avisos às suas noviças acerca dos defeitos das mesmas.

O oficio de sacristã foi lhe confiado no dia 1º de outubro de 1592. Desnecessário será frisar, com quanta religiosidade ela cuidava dos vasos sagrados, dos paramentos e demais utensílios, destinados ao Culto Divino.

Tendo chegado à idade de trinta anos, em 1598, ela foi nomeada Mestra do Juvenato; desempenhando este ofício durante três anos, com grande zelo e eficiência. Ela experimentava e ensinava às suas alunas, no caminho das virtudes sólidas; não somente com a palavra, mas, sobretudo com o seu próprio exemplo.

Pelo Capítulo de 11 de outubro de 1598, ela foi eleita, com votos unânimes, para o oficio de Mestra de Noviças; sendo confirmada, no mesmo ofício até o Capítulo de 1604, quando foi eleita subpriora. No exercício deste ofício, a morte a encontrou.

Quanto à direção das noviças e jovens professas, Maria Madalena procedia com uma prudência tão grande, que esta poderá servir de norma para todos quantos forem encarregados de semelhantes ofícios. Em primeiro lugar, o seu amor para com suas filhas era imparcial. Ela queria bem a todas. Os cuidados por ela dispensados às jovens eram sem exceção. Vendo algum hábito rasgado, ela o consertava; estando algumas sobrecarregadas de serviço, ela as ajudava; achando-se alguma doente, ela a tratava, continuamente, permanecendo noite e dia, ao pé da cama, dispensando-lhe todos os cuidados possíveis, incutindo-lhe, com as suas palavras afáveis e animadoras, a coragem para suportar de maneira meritória, os incômodos e as dores da doença. As suas noviças ela exortava que tomassem a liberdade de bater à sua porta, fosse de dia, fosse de noite, acrescentado que, em caso de necessidade, ela passaria a noite com elas. Quando as noviças, vendo que a Mestra estava doente, lhe suplicavam que fosse tomar seu repouso tão necessário, ela respondia que não se preocupassem com a sua saúde, porque ela confiava na bondade de Deus. Até ela estava pronta a sacrificar a sua hora de oração e as suas práticas de piedade, pelo bem das suas filhas. Ao mesmo tempo, ela tinha um conceito tão baixo de si mesma que chegava a declarar: “Como faríeis maiores progressos na perfeição, se tivésseis uma outra Mestra”.

Enquanto ela era irmã externa, encarregada de receber e instruir as jovens candidatas à vida religiosa, Maria Madalena as estudava e observava atentamente, não descuidando de nenhum meio para obter certeza da realidade das vocações. Para tanto, ela experimentava as jovens, de todas as maneiras, ensinando-lhes, ainda, toda a extensão e todo o peso da vida religiosa. Encontrando, em algumas, resistência, ela falava com fraqueza: “Se o nosso modo de viver não for do vosso agrado, podereis escolher outro convento. Quanto a nós, temos amor a nossa Regra, e não desejamos introduzir mudanças na mesma!” Ela tinha um coração terno e compassivo; em se tratando, porém, da disciplina regular, mostrava-se severa e inexorável. E nem a nobreza, nem a fortuna, nem qualquer outro dote das postulantes tirava à Madre Maria Madalena a liberdade de dizer o que ela pensava.

A fim de imprimir, nos corações das suas Noviças, um amor forte e generoso para com sua Ordem, ela procurava aos poucos acostumá-las à observância da Regra e dos costumes da casa. Para justificar este seu procedimento ou sistema, ela explicava às outras monjas: “Quando estas jovens abandonam o mundo, elas deixam, por lá, todos os objetivos das suas afeições. E por isso, é preciso que elas, por aqui, encontrem alguém que as anime amorosamente a abraçar com generosidade, todas as dificuldades da vida religiosa”.

Quanto às noviças, ela procurava infundir-lhes um amor verdadeiramente filial para com as superioras, e um amor de irmãs para com as demais religiosas. Tudo isto, porém, por motivos sobrenaturais, fundamentados em Deus. Os recreios permitidos pela Regra, ela os queria alegres: contribuindo, da sua parte, quanto podia. Para tanto, ela aduzia muitos motivos e argumentos. Eis aqui um exemplo, entre muitos outros. “Desejando obter para nós mesmas, uma grande graça, pedi dois ou três graus para as nossas Irmãs, certas de que elas merecem muito mais do que nós mesmas. Desta forma, preparar-vos-eis a receber aquela graça, purificando a nossa intensão de qualquer sentimento de soberba e de procura própria; porque sois obrigadas a tender à perfeição mais alta possível. Querendo chegar a ela, bem depressa, tomai a Jesus Cristo como vosso Mestre, prestando grande atenção às suas lições e instruções; porque Ele falará continuamente aos vossos corações; particularmente, depois da Santa Comunhão. Que a oração seja o vosso maior prazer. Uma alma acostumada a se entreter com Deus, não quer mais outra ocupação; porque só Deus lhe basta. Que o fato de terdes abandonado os vossos pais, ou qualquer outra afeição terrena, não encha de tristeza o vosso coração; porque, em Deus haveis de reencontrar tudo quanto tiverdes abandonado, bem como a plena satisfação de todos os vossos desejos. Finalmente: para não cairdes nas ciladas do demônio, procurai não ter qualquer segredo, sede francas e manifestai os vossos mais íntimos pensamentos”.

A Santa Madre ensinava, com grande empenho, como as suas noviças deviam recitar o Divino Ofício, procurando incutir-lhes um amor profundo para com esse dever; porque ele é um dos principais da vida religiosa e contribui mais para homenagear a Deus. Antes de dar início à recitação, ela reunia em redor de si as suas filhas, explicando-lhes os motivos porque se deviam comportar com o maior respeito possível. Chamava a atenção das mesmas para o santo temor, com que os anjos estão em redor do trono da Majestade Divina, entoando-Lhe incessantemente os seus louvores e cantos de adoração. Por isso, ela ensinava às jovens que, antes de procederem a recitação do Ofício se humilhassem profundamente, reconhecendo-se indignas de uma missão tão santa e sublime. Ela preferia a assistência ao ofício coral a todos os demais atos comuns ou particulares. Quando uma das suas filhas lhe pedia dispensa do ofício coral, por qualquer motivo, ainda que fosse para se entregar à oração mental, ela respondia: “Não, minha filha! Da minha parte, eu te enganaria, se concedesse esta licença. Porque eu te faria crer que uma devoção particular dará maior honra a Deus; enquanto, justamente, a oração particular, comparada ao culto público, é de pouco valor.”

Durante a recitação, ela prestava uma grande atenção ao que estavam fazendo as suas noviças, para ver se estas não cometiam faltas. Percebendo que alguma não se comportava como devia, chamava a atenção da culpada, dando-lhe uma repreensão.

Outra grande preocupação da Madre era ensinar às suas filhas espirituais que procurassem realizar todas as suas obras, com uma intensão reta e pura de agradar a Deus, em tudo. Ela afirmava que uma alma acostumada a fazer tudo, até os mínimos movimentos, por amor de Deus, entraria diretamente no céu, sem passar pelo purgatório. Muitas vezes, para experimentar a fidelidade das noviças, sob este aspecto, ela fazia uma pergunta repentina a qualquer uma indagando pelos motivos, com que estava agindo naquele instante. E, conforme a resposta, ela dava uma animação ou repreensão.

Outro conselho, que ela costumava dar era o de fazer tudo em união com Jesus Cristo, explicando que as nossas boas obras, por si mesmas, não passam de lodo ou chumbo, mas que as mesmas, unidas às obras de Jesus Cristo, se transformam em ouro puríssimo.

Uma coisa que ela considerava como um grave dever seu, era ensinar às suas filhas a prática da presença de Deus.  A fim de acostumá-las a este santo exercício, ela fazia-lhes perguntas, como estas: “Onde está o teu coração, minha filha? Em que estais pensando? Quantas vezes, já destes graças a Deus, por que Ele te chamou para a vida religiosa? Ou por causa do grande dom da Comunhão?”

Por meio destas santas indústrias, ela conseguia acostumá-las a viver na presença e sob o olhar de Deus, a escutar a sua voz e atender aos seus pedidos.

A fim de levar as noviças à mortificação de si mesmas, Maria Madalena ensinava-lhes que Deus espera das almas religiosas uma verdadeira morte, sem a qual é impossível chegar à vida divina. E, conforme ela ensinava, esta mortificação abrange tudo, abrange a pessoa toda. Eis uma das suas explicações: “A vida da nossa carne consiste no prazer sensual; a sua morte consiste na privação do mesmo, e esta morte é efetuada pelas vigílias, abstinências e outras penitências ou autoridades. A vida do nosso entendimento e da nossa vontade consiste em nós mesmos dispormos de tudo quanto é nosso conforme nosso bel-prazer, a sua morte consiste na obediência e em viver sujeito ao juízo alheio. A vida da nossa vaidade consiste na procura da estima e da consideração dos homens, a sua morte em ocupações humilhantes, no desprezo de si e numa vida oculta. A alma, que pensa poder morrer espiritualmente e gozar, simultaneamente de consolações interiores e exteriores, anda muito enganada.  Para merecer o belo título de serva de Deus, é preciso ter trabalhado e sofrido muito no serviço d’Ele. Não é na doçura e nos gozos celestiais que se encontra Deus, mas na prática assídua da virtude, cujo berço esteve no calvário, e cujo alimento vem a ser os frutos da cruz. As consolações não têm valor, a não ser que elas tornem a alma mais corajosa no serviço de Deus, mais paciente no sofrimento, mais desejosa de cumprir a Santa Vontade de Deus”.

Tendo-se em vista tais ensinamentos e tais máximas fundamentais, é fácil de entender que Santa Maria Madalena não confiava muito em almas, cujo único alimento no Caminho de Perfeição, parecia ser o mel e o leite. Deparando com qualquer noviça, cujo caminho parecia ser exclusivamente de paz e sossego, ela declarava francamente: “Tenho um grande receio, minha filha, de que tudo quanto estais a fazer, somente servirá para acomodar o homem exterior (o velho homem de São Paulo), sem causar-lhe algum aborrecimento interior ou exterior. A verdadeira virtude necessita de provações; ela cresce, vinga, torna-se vigorosa e constante, no meio de tentações, contrariedades e provações, sejam estas provenientes de Deus, das criaturas ou dos demônios”.

CAPÍTULO XIV

Continua o mesmo assunto

Encontrando nos dons sobrenaturais que ela recebera um grande auxílio, a nossa Santa era conhecedora de todas as inclinações e aptidões naturais das suas filhas, acomodando-se às mesmas, com facilidade e prudência. Conforme a índole das noviças variava, também as táticas da Madre, levando todas à perfeição, conforme os dotes naturais, e confirmando-as na prática de virtudes sólidas, à medida das graças recebidas. Era coisa maravilhosa e edificante ver como ela tratava aqueles corações. Sentada no mesmo lugar, ela animava a umas com um sorriso, a outras ela confundia e humilhava, com um olhar severo. A umas ela dava uma repreensão severa por causa de qualquer falta leve, a outras uma repreensão muito mansinha, por causa de faltas mais graves, enquanto a uma terceira categoria ela não dizia nada, deixando passar a coisa, como se não tivesse visto nada. Ela fugia das que a procuravam, ia à procura das que lhe fugiam. Mas, tudo isto com uma habilidade tal que não só não feria a ninguém, como ainda todas reconheciam que era este o método exato, que lhes convinha. O zelo da Madre visava particularmente atingir o amor próprio, que cada qual tinha, procurando incutir às suas filhas uma sólida humildade. Para alcançar este fim, ela as humilhava de várias maneiras, tanto em particular, como em público. E o seu expediente era tão grande, que lhe bastavam umas poucas palavras para levá-las a reconhecer os defeitos e as faltas cometidas. Por vezes, ela mandava que alguma das noviças se colocasse no meio das outras, e, então, dizia: “Esta menina pensa ter prestado um grande favor, vindo a nós, enquanto eu posso afirmar que ela se pode dar por muito feliz, sendo recebida por nós”. Descobrindo em qualquer uma, grandes dons e qualidades de inteligência, de juízo e de habilidades especiais, ela utilizava-se poucas da mesma, para fazer algum serviço, ou então, descobria muito habilmente defeitos, no serviço prestado, a fim de conservá-la na humildade.

Agora uma palavrinha sobre as penitências públicas, impostas pela Santa. A uma postulante ela deu ordens de servir à mesa, trajada com os seus vestidos ricos, elegantes, trazidos do mundo. Antecipadamente, Maria Madalena já havia combinado com algumas das monjas mais idosas, que estas tratassem à postulante em questão como uma tresloucada. Notando, em qualquer outra, uma tendência à vaidade ou vã glória, a Mestra encarregava a algumas outras noviças de fazerem uma exposição bem clara e nítida das faltas e deficiências observadas naquela tolinha. Havia, entre as postulantes, uma de 19 anos, filha de família importantíssima e moça muito prendada. Esta teve a presunção de declarar publicamente, no meio das noviças: “Quanto a mim, eu não quero ser religiosa de nome tão somente, mas religiosa de verdade”. A Madre deixou passar aquele momento. Uns dias após ela chegou, a saber, que a tal pretendente a uma grande santidade não queria saber de praticar certos costumes ou usos da casa. Foi a hora que Maria Madalena aproveitou para dar uma boa lição. Ela mandou vir a pretenciosa e, na presença de todas as outras, deu-lhes a conhecer o seu grande espírito de soberba, acrescentando ao fim: “Estas, no entanto, são as moças nas quais o mundo sabe descobrir tantos dotes e prendas!” A postulante ou noviça em questão, teve que ouvir outras vezes, semelhantes repreensões, para que aprendesse a prática da humildade. Quantos olhares severos e como que desdenhosos da Madre ela não teve que suportar. Antes de ser admitida à tomada de hábito, esta mesma candidata forneceu à Madre um novo motivo de apreensões. Num dia de recreio, a jovem chegou a declarar que lhe havia custado muito a resolução de ingressar para este Mosteiro, porque ela sabia que não teria grandes sofrimentos no mesmo. A mestra, vendo nisto uma prova do grande despeito da postulante, queria dar-lhe uma oportunidade para se curar deste defeito. Ela mesma começou a tratá-la com maior severidade, impondo-lhe penitências ou dirigindo-lhe palavras duras, por ocasião de qualquer faltinha. Às outras noviças ela mandou que criticassem a companheira, de todos os modos, como se fosse por conta própria. Vendo, então, que a moça chegava a derramar lágrimas, por causa destes tratos, dizia-lhes: “Minha filha: lembre-se das lutas que teve de suportar para poder entrar neste mosteiro, onde não se sofre!” Este tratamento forte continuou até a cura definitiva da paciente. Mais tarde, como para dar-lhe algum consolo, a Madre lhe disse: “Minha filha, para a alma poder levar uma vida deiforme, é preciso que ela comece por morrer a si mesma”. Esclareceu, ainda, que tudo isto havia sido para o maior bem daquela alma. Para com as almas mais simples e menos generosas, ela procedia de outra maneira, animando-as, por meio de provas de benevolência a percorrer o caminho da perfeição.

A Madre combatia da mesma forma, a opinião e a vontade própria, que as suas filhas mostravam ter. Descobrindo, por exemplo, que alguma delas tinha afeição exagerada aos exercícios da oração, dava-lhe ordens de ir descansar ou de fazer trabalhos manuais, exatamente na hora destinada à prática da oração. Vendo, pelo contrário, que tal outra estava mais inclinada a trabalhos manuais, dava-lhe ordens de se entregar à oração, quando soava a hora do trabalho, ou, então, ensinava-lhe como podia e devia realizar os seus trabalhos exteriores, com um espírito interior.

Em tudo isto, porém, ela procedia com tanta prudência e caridade, que as próprias penitenciadas chegavam à conclusão de que a coisa estava muito bem feita. Havia nos seus traços fisionômicos um misto tão atraente de bondade e severidade de imponência e humildade, que ela ganhava os corações. Nunca ela impunha uma penitência ou mortificação, sem ter feito, sobre si mesma, uma experiência antecipada. Nunca ela dava uma ordem, sem ter consultado o seu crucifixo. O que ela não permitia era que alguma das suas filhas espirituais depois de ter cometido qualquer falta, se entregasse ao repouso noturno, sem ter dado a reparação necessária. Ela procurava distribuir as repreensões com o seu coração totalmente apaziguado e calmo. Uma noviça sentia para com ela uma aversão secreta, chegando mesmo à imprudência de dizer isto à Madre. Esta em vez de dar uma resposta, deixou passar a coisa. Mais tarde, quando a jovem reconheceu o seu erro, foi novamente falar com ela, manifestando-se arrependida. A Madre tratou-a com a maior benevolência e afabilidade possível, restituindo-lhe, assim, a paz e o sossego da alma.

Notando qualquer defeito, em algumas das suas filhas, ela fazia um exame de consciência para verificar se, na sua própria pessoa, não havia culpabilidade, sobre o mesmo objeto. Somente depois, ela dava repreensão necessária. Até acontecia que, dada a repreensão merecida, ela se apresentava à Madre Priora acusando-se mais culpável e pedindo alguma penitência.

Uma coisa ela não suportava, no seu noviciado: a tristeza. Vendo uma fisionomia triste, ela dizia: “Tu não amas a Deus, minha filha; porque estás sentindo tristeza no serviço d”Ele. Para que ocupar-te continuamente contigo mesma? Pensa na salvação das almas… oferece esta oração… o Sangue Precioso de Jesus… Um dos motivos por que Deus nos chamou do mundo é que nós devemos ajudar à Santa Igreja, na obra da salvação das almas”.

A sua hora preferida para distribuir repreensões ou penitências, era a que seguia imediatamente a oração; porque então, as almas deviam estar nas melhores condições. Percebendo que assim mesmo alguém se perturbava ou entristecia, ela dizia que a oração não tinha sido bem-feita.

O que ela mais exigia era a obediência pronta, alegre, perfeita e total. O sacrifício do “eu”. Impossível encontrar-se uma madre mais condescendente. Duas coisas, no entanto, Santa Maria Madalena não pôde suportar nas suas alunas e filhas, impondo-lhes severas penitências e repreensões, quando caíam nas mesmas. Estas duas coisas eram: dizer: eu quero ou eu não quero; e falar mal do próximo, ainda que fosse coisa pequenina.

Quanto a esta última, ela aconselhava frequentemente as suas noviças, que não falassem do próximo nem mesmo coisas boas; porque, dizia, a gente começa por falar bem deles, mas depois começa a falar mal. E acrescentava, ainda, que da pessoa ausente não se falasse no que na presença da mesma não se teria coragem de dizer. Quanto a ela, estava pronta a declarar Santa uma pessoa que nunca tivesse falado o menor mal do próximo. Chegando, a saber, que uma das suas filhas era culpável de qualquer maledicência leve, ela não permitia a entrada da mesma na capela, a não ser depois de lhe ter infligido alguma penitência. Sendo a maledicência leve, ela mandava a culpada que traçasse o sinal da cruz sobre o soalho; sendo, porém maior, ela mandava as outras noviças, que em sinal de desprezo pusesse o seu pé sobre a boca da culpada. Para penitenciar e castigar as palavras: eu quero e eu não quero, ela empregava o mesmo método e isto com tanta eficiência que estes dois defeitos desapareceram do seu noviciado.

Outro defeito que ela guerreava impiedosamente nas suas filhas, era o egoísmo; fosse qual fosse o aspecto sob o qual este defeito apresentava. Ela costumava dizer que uma pessoa que é boa e compassiva, exclusivamente para consigo, não é boa nem para si própria. Pelo contrário, ela apreciava muito aquelas que, sabiam compartilhar com outrem aquilo que recebiam. Certa ocasião, encontravam-se reunida algumas das noviças já mais adiantada, para tratarem de assuntos espirituais, uma das mais novas desejava unir-se a elas; mas não foi admitida. Quando a mestra percebeu isso, ela deu uma repreensão severa naquele grupinho de noviças, dizendo que elas não eram nada devotas, mas sim, egoístas; acrescentando ainda uma boa penitência. Pelo mesmo motivo, ela não permitia que as suas alunas tivessem um mínimo apego a qualquer coisa. Com o fim promover e fortificar no coração dos jovens aquele ditoso desejo, ela ensinava-lhes que mensalmente, fizessem um balanço dos objetos deixados para o uso pessoal; e que encontrando algum objeto, ao qual elas talvez tivessem apego, o sacrificasse imediatamente.

Um dia, ela descobriu um apego forte de uma noviça a um manuscrito espiritual, confeccionado pela mesma. Na mesma hora, ela mandou que o queimasse. Outra tinha uma afeição toda especial para com o seu rosário. A mestra tirou-lhe este objeto, por uns seis meses. Passado este prazo, lhe restituiu, sob condição de que a jovem, cada noite, fosse entrega-lo à Madre Mestra. Desta forma, a noviça chegou à convicção que todos os objetos a seu uso, lhe tinham sido emprestados pela comunidade.

Sendo a própria Santa muito exata na observância do silêncio prescrito pela regra ela era também muito exigente neste particular, para com as almas, confiadas aos seus cuidados. Ela afirmava que é impossível que uma alma religiosa encontre gosto nas coisas divinas sem o amor e a prática do silêncio. E as transgressões das suas noviças eram severamente punidas. Ela mesma se penitenciava por causa da falta de silêncio de suas filhas.

Finalmente, com grande empenho, ela preparava, mediante prática, instruções e conselhos espirituais, a profissão das mesmas. E na véspera da cerimônia, pediam humildemente perdão a elas; por que estava convencida de não ter cumprido bens seus deveres de Mestra.