Vida de Santa M M de Pazzi (cap 6-7)

Vida de Santa M M de Pazzi (cap 6-7)
CAPÍTULO VI
As célebres privações ou tentações de Maria Madalena
Depois de muitas outras revelações e visões que deviam preparar e animar a santa, fornecendo-lhe instruções práticas, quanto ao seu proceder interior e exterior para com Deus, para consigo mesma e para com o próximo, sobreveio-lhe a grande visão da Vigília de Pentecostes, do ano 1585. Durante oito dias completos de vida extática, da qual ela saía diariamente umas duas horas, a fim de satisfazer as suas necessidades urgentes, a santa recebeu as comunicações mais variadas do Espirito Santo. Sob as aparências de fogo, de água, de pomba, de nuvem escura, de coluna ou de língua de fogo, este Espírito de vida e santidade infundiu-se-lhe na alma. Durante aquelas visões, ela mostrava-se tão alegre e tão exultante, tão iluminada e tão instruída acerca dos mistérios mais profundos e sublimes, que era impossível ter-se dúvidas sobre a origem divina das mesmas. Os conhecimentos por ela adquiridos naquela ocasião, eram tão múltiplos, que acabariam por encher vários volumes. Não trataremos deles, mas tão somente das tremendas provações que Deus lhe anunciou e que lhe sobrevieram, logo depois de terminados aqueles êxtases. Elas tiveram a duração de cinco anos.
Nosso Senhor lhe disse: “Fica sabendo, minha filha que, durante cinco anos, te verás privada do sentimento da minha graça, mas não da própria graça, a qual permanecerá sempre contigo. Recomendo-te, particularmente, duas coisas: a primeira é que nunca perca da vista o conhecimento do teu próprio nada, a segunda é que, com maior fidelidade, prestes atenção às minhas inspirações, procurando executá-las. Sob estas condições, continuarei intimamente unido contigo e a minha paz permanecerá na tua alma, ainda que te pareça por vezes, que te achas reduzida a uma verdadeira agonia. Feras infernais atacar-te-ão exterior e interiormente. Jamais, porém, permitirei que alcancem a vitória sobre ti. Quanto mais tremendos forem os seus assaltos, tanto mais forte será o meu auxílio, sem que, no entanto, sintas ou experimentes o sabor da minha graça”.
Em seguida, Nosso Senhor acrescentou que ela teria que suportar cinco ataques tremendos, por parte das forças do inferno, mas, que não temesse nada, porque Ele jamais deixaria de protegê-la. Depois de ter ouvido estes avisos, Maria Madalena humilhou-se profundamente diante de Jesus, sujeitando-se às futuras provações e penas, dizendo: “A vossa graça, Senhor, me basta. Com ela serei segura da vitória, e nenhuma coisa será capaz de me perturbar”.
Passada a festa da Santíssima Trindade, a jovem lutadora viu-se, de repente, privada da doçura consoladora da graça, e tiveram início as lutas que lhe haviam sido anunciadas. Ela viu-se circundada de uma multidão enorme de demônios, cujo aspecto era horrendo e que não a deixavam sossegar. Dia e noite, ela tinha diante dos olhos as imagens dos crimes mais vergonhosos, cometidos entre os homens. Somente ouvia uivos e blasfêmias tremendas. Umas vezes, os demônios agarravam-na, em cima da escada lançando-a para baixo; outras vezes, transformavam-se eles em serpentes, cujas mordidas causavam dores insuportáveis. Tudo isto demorou uns quinze dias. Em seguida, Nosso Senhor tendo dó da fraqueza de Maria Madalena quis conceder-lhe algum alívio. Desde o dia 20 de julho até ao mês de outubro, as tempestades amainaram em número e violência. Chegando, porém, aquele mês, os assaltos tornaram-se mais tremendos. Sempre ela saía vitoriosa em virtude da assistência do seu Divino Esposo. Mas estas vitórias somente serviam para tornar o seu inimigo ainda mais assanhado e provocar ataques mais numerosos. Desta forma, ela viu-se forçada a fazer estas perguntas: “Ainda serei uma criatura racional, ou teria perdido o juízo? Não sei! Considerando-me a mim mesma, não vejo nada de bom dentro de mim, a não ser uma vontade fraca de não ofender a Deus. Realmente descobrindo em mim tantas faltas, que são para as outras ocasiões de pecado, não posso compreender como Jesus e as suas esposas ainda possam suportar-me.
Em consequência destes tormentos de espírito, todos os exercícios de piedade tornaram-se para ela insuportáveis.  Ela teve que fazer um esforço incrível sobre si mesma, para tomar parte nos atos comuns. E, no entanto, tudo isto não passava do início: faltavam ainda os cinco grandes assaltos anunciados pelo seu Divino Mestre.
O primeiro destes dirigiu-se contra a fé, o demônio não poupou nenhum esforço para lhe roubar este tesouro. Depois de ter empregado todas as tentativas infrutíferas para convencê-la de que não existe Deus, nem céu nem inferno, nem vida futura, ele procurou insuflar-lhe a convicção de que Nosso Senhor Jesus Cristo não está realmente presente no Santíssimo Sacramento. Foi em vão, mas de qualquer forma, ele conseguiu mediante aquelas tentações e visões interiores, incutir-lhe um verdadeiro estupor, que dificultava muito a recepção da Santa Comunhão. Chegando o momento de receber Nosso Senhor, na Eucaristia o demônio enchia-lhe a imaginação com as coisas mais horrendas. Tudo isto trazia consigo que a pobre não sentisse mais a mínima atração para as coisas espirituais. A só vista de algum crucifixo ou quadro religioso incutia-lhe horror. Em outras ocasiões, o demônio procurava induzi-la a proferir blasfêmias, particularmente, quando ela estava no coro juntamente com as demais monjas. Então ressoavam aos seus ouvidos exclusivamente blasfêmias, e isto com tanto vigor e ruído, que ela era incapaz de perceber a sua própria voz, ou das companheiras. Desfeita em prantos, ela explicava às suas vizinhas: “Ah! minhas irmãs queridas, pedi a Jesus que eu não chegue a proferir blasfêmias contra Deus, em vez de cantar os seus louvores!” O demônio tentava afastá-la da Santa comunhão e das outras práticas. Percebendo, porém, o laço infernal, ela recorreu a um remédio que a Santíssima Virgem lhe havia ensinado. Este consistia em recorrer à autoridade da Madre Priora, pedindo a esta que proibisse em virtude da santa obediência, prestar ouvidos a tais sugestões. Esta humildade restituía-lhe, por alguns dias a paz e o sossego.
Mas o demônio não demorou muito em apresentar-se outra vez. Agora, mudou de tática, dirigindo os seus ataques contra a santa virtude da pureza.
Impossível ter-se uma ideia do horror que aquela jovem angelical sentia, ao perceber os primeiros sintomas sensuais excitados por aquele monstro infernal, nos seus membros tão castos. Imediatamente, ela lembrou-se do que fizeram alguns santos. Ela foi esconder-se no jardim, onde confeccionou um leito de cardos e espinhos, no qual ela se deitou, a fim de apagar aquele incêndio profano. Outras vezes, ela aplicava a si mesma tremendas e cruentas disciplinas. A Madre mestra, chegando a descobrir estas práticas, proibiu-lhe que continuasse com as mesmas. Nestas condições, ela refugiou-se junto à Virgem Santíssima, suplicando-lhe, com muitas lagrimas, não permitisse que fosse maculada a sua pureza virginal. Apenas terminada esta oração confiante, a Rainha do céu, circundada de grande glória, apareceu-lhe, assegurando duas coisas. A primeira daquelas tremendas tentações, não havia ofendido a Deus; e a segunda que sua vitória seria ainda mais brilhante, em consequência da grande coragem, com que ela havia combatido. Em seguida, N. Senhora cobriu-a com um manto de fulgurante brancura, como se fosse para anunciar-lhe o fim daquelas lutas humilhantes. E, de fato; desde aquele momento até ao derradeiro dia da sua vida, Maria Madalena teve o domínio completo sobre os seus sentidos internos e externos, sob este aspecto. No mesmo dia, teve início um outro sofrimento. Uma febre ardente, acompanhada de terríveis dores nas costas, atacou-a durante uns vinte dias. Mas, em vez de diminuir os seus costumeiros exercícios de piedade, a jovem ficou fiel a eles, permanecendo mesmo durante mais tempo, em oração e não diminuindo, em nada, as suas penitências e mortificações. Os demônios enfureceram-se. Conforme o costume da sua comunidade, andava Maria Madalena descalça e usava um só vestido, tanto durante o verão, como durante o inverno. Os demônios, assumindo as feições e aparências de algumas religiosas do Mosteiro, apresentaram-se a ela, dizendo que esta prática desagradava sumamente a Deus e que ela corria o grande risco de perder a graça, por causa de sua imprudência. Pensando estar tratando com verdadeiras religiosas, Maria Madalena foi expor o caso à Madre Priora, a qual não teve maior dificuldade em fazer-lhe ver que se trava dalguma astúcia diabólica.
Vendo-se desmascarado, o espírito da mentira recorreu, algumas vezes, a um outro estratagema, desejando que a jovem perdesse a sua fama e o grande renome da sua virtude, frente à Comunidade.        Enquanto Maria Madalena estava ocupada com qualquer ato comum, o demônio, assumindo as feições exteriores da Santa, metia-se na cozinha ou dispensa praticando algum ato de gulodice, à vista de qualquer outra Religiosa. Esta naturalmente, devia servir de veículo, para tornar conhecida a suposta falta de nossa monja, tão conhecida e reputada, justamente por causa do seu alto espírito de mortificação. A consequência era inevitavelmente a humilhação pública, até que se chegasse a saber que, naquelas mesmas horas, a coitada tinha estado em outros lugares, e ocupava com coisas muito mais sérias e santas.
Algumas vezes, como que para animar a Santa, N. Senhor lhe concedia durante todo aquele tempo, algum êxtase ou favor especial. Assim, por exemplo, ela mereceu ver a Jesus Menino, apertá-lo entre os seus braços.
As tentações, em vez de diminuírem, aumentaram, tornando-se cada vez mais terríveis. Ora eram imaginações de vaidade e grandeza, que lhe enchiam o espírito; ora pensamentos de desânimo e desespero, que lhe cansavam o coração; ora nojo da vida religiosa, que lhe tornava insuportável qualquer prática piedosa. E tudo isto, de uma forma tão viva, que lhe parecia ter dado o seu consentimento; desde a manhã até à noite.
Certo dia, ela passava por um corredor do Mosteiro e, lançando o seu olhar, sobre um quadro que representava o seu Mestre Amado, ela entrou num êxtase súbito o qual durou duas horas. Foi então, que N. Senhor lhe fez conhecer todas as faltas que que ela tinha cometido, até então. Desfeita em prantos, ela exclamou: ah! meu Deus! Que posso fazer para reparar tantas ingratidões. Bem gostaria de ir para o inferno, se com isto eu pudesse conseguir que jamais Vos tivesse ofendido! Saindo daquele êxtase ela foi ter com sua Madre, pedindo-lhe que a tratasse como uma malfeitora, atando-lhe as mãos sobre as costas. Este ato de humildade foi tão agradável a Deus, que durante a semana inteira, comunicou à Santa, os dons do Espírito Santo, de vários modos.
E bem ela estava precisando deste auxílio especial, porque o demônio começou imediatamente a renovar os seus assaltos. Desta vez, conta a pobreza. Diante dos olhos da jovem, ele fez uma exposição maravilhosa de todas as riquezas e de todos os luxos do mundo, incutindo-lhe, ao mesmo tempo, a ideia da pobreza religiosa ser a coisa mais detestável. Depois de ter sustentado, durante algum tempo, esta nova tentação, o próprio céu veio em seu auxílio. Como já vimos, o demônio enfurecera-se contra a Santa, porque esta, mesmo por ocasião dos maiores rigores do inverno, usava um só habito leve. Ora, ele queria que Maria Madalena usasse mais um outro e o próprio Deus o queria também. E foi justamente essa mudança em seus costumes, que fez com que a jovem alcançasse a vitória, nesta luta pela pobreza. Estava-se, então, num maior rigor do inverno, e as religiosas, vendo que Maria Madalena andava tão mal protegida contra o frio, receavam pela saúde dela. Por isso, elas dirigiram-se à Madre Priora, pedindo-lhe que procurasse um meio para agasalhar melhor a jovem, sem contrariá-la. Depois da recitação do ofício noturno da festa de São João Evangelista, a Madre mandou à Santa que se postasse no meio do coro. Em seguida dirigiu-lhe estas palavras: “minha filha: resolvi aperfeiçoar a sua pobreza, e, por isso, quero que dispa esse hábito, e que vista um outro”. Sem esperar uma palavrinha da jovem, ela mandou a uma outra monja que executasse as suas disposições. Feito isto, ela acrescentou: “minha filha: dou-lhe este hábito por amor de Jesus, e quero que faça uso do mesmo, até eu ordenar o contrário”. Foi quanto bastou para afugentar as terríveis tentações contra a pobreza, suportadas por nossa Santa.
Se bem que convencido de que seus ataques contra Maria Madalena não lhe daria qualquer resultado, o demônio não deixava de incomodá-la, com as suas manhas mentirosas. Assim, por exemplo, pois à Santa a ideia de que esta faria um bem muito maior, se voltasse para o mundo, onde poderia trabalhar pela salvação dos outros. Vendo-a, porém, firme no propósito de perseverar, o demônio recorreu a expedientes horríveis. Ele assumia aspectos medonhos e horripilantes, ameaçando-a com os piores maltratos, se ela não atendesse. A jovem ria-se dele. Uma vez, vendo-se muito fortemente tentada, neste particular, ela foi buscar as chaves da portaria, colocando-as nas mãos de uma imagem de Nosso Senhor. Outra vez, sentindo-se terrivelmente impelida para atentar contra a própria vida, ela foi buscar um facão da cozinha, voltou para o coro e colocou aquela arma entre as mãos de Nossa Senhora. Em seguida, como que para mostrar que ela detestava tais tentações, começou a pisar e repisar em cima do facão.
Quanto as tentações de gula e gulodice que contrariavam a santa, não somente sob o aspecto sobrenatural, mas até sob o aspecto natural, ela empregava os meios puramente naturais para vencer. Tomando qualquer alimento de paladar mais agradável, para praticar a obediência, ela entregava-se a considerações sobre a paternal providência de Deus, que lhe enviava tal coisa. Era o bastante, para nem perceber o sabor dos alimentos.
Quando um grande cabo de guerra quer tomar de assalto uma praça forte, bem defendida e guarnecida, ele começa com pequenas escaramuças, a fim de cansar os defensores. Em seguida, jugando ter conseguido seu objetivo, ele ordena o assalto definitivo. O demônio segue essa mesma tática, em relação àquelas almas que se consagraram a Deus no estado religioso. Com permissão divina, ele dirige os seus ataques iniciais, ora contra a pobreza e a castidade, ora contra a fé, a esperança, a mortificação e outras virtudes. Isto, porém, não costuma passar de ataques iniciais e preparatórios e serve tão somente para amedrontar e enfraquecer estas almas. Quando ele quer apoderar-se da alma, o demônio dirige o seu assalto definitivo contra a obediência. Esta tentação foi também a derradeira suportada por Maria Madalena, e a que lhe conferiu a vitória suprema, depois de cinco anos de lutas tremendas. Impossível descrever como o demônio soube tornar-lhe horroroso tudo quanto se referia à obediência. A violência sofrida, por vezes era tão grande que ela chegava a responder à priora: “Não minha Madre, não posso cumprir a sua ordem”. Mas, apenas pronunciadas tais palavras ela desfazia-se em lágrimas, declarando em alta voz que preferia morrer a não obedecer. Em seguida, prostrava-se aos pés da sua superiora, e renovava a sua profissão. Não obstante a compaixão que ela experimentava para com a sua filha, a Madre Priora conformava-se com as disposições de Deus, o qual visava o progresso espiritual da sua eleita, através destas provações. Na presença de todas as monjas, a priora impunha a Maria Madalena grandes humilhações e pesadas penitências. E esta, com o rosto alegre submetia-se a tudo, edificando desta maneira a toda a comunidade.
Finalmente, passados os cinco anos terminaram aquelas tremendas tempestades.

 

CAPÍTULO VII
                O que acontecia com Maria Madalena, por ocasião dos seus êxtases – como ela recebeu a certeza de não andar enganada.
                As coisas narradas até agora, sobrevieram à Maria Madalena, durante o tempo que ela teve que passar dentro do noviciado. Depois daquela época, ela teve tantos êxtases, visões ou raptos, que se pode afirmar que toda a sua vida religiosa foi um êxtase contínuo, ininterrupto. Estas coisas aconteciam-lhe, não somente por ocasião da Santa Comunhão ou da oração, como ainda durante o recreio, o trabalho manual e em qualquer lugar e circunstância. Bastava ver uma flor, ouvir pronunciar o nome de Jesus. As Noviças, sabendo disso, forneciam-lhe muitas oportunidades!
                Os êxtases, como já foi dito, duravam horas, dias e até uma semana inteira. Nestas ocasiões, ela falava com tanta rapidez que uma só pessoa não bastava para fazer anotações. Por isso, ela ocupava seis secretárias.  Cada uma, por sua vez, escrevia uma frase. Ao fim ajuntavam tudo, conforme numeração das frases anotadas, e apresentavam o trabalho a Maria Madalena, que devia aprovar ou corrigir. Desta maneira chegaram até nós muitos colóquios da Santa com Deus, com Nossa Senhora e outros santos.
                O aspecto exterior de Maria Madalena, por ocasião dos seus êxtases, variava: o seu rosto, macilento em consequência das suas grandes penitências, tronava-se cheio e rosado. Os seus olhares, brilhantes, dirigiram-se para o alto. A sua beleza exterior, tornava-se uma coisa tão impressionante e cheia de majestade, que o coração das pessoas presentes se enchiam de devoção e dos sentimentos mais puros e mais elevados.
                Por ocasião de contemplações mais profundas e mais sublimes, cujos objetivos eram a natureza ou os atributos divinos, o seu rosto parecia inflamado, incendiado de um grande braseiro, e, ao mesmo tempo mais alegre e mais imóvel. As suas pálpebras não se fechavam, e seu peso tornava-se maior. Em tais ocasiões, as suas companheiras, fizeram tentativas baldadas de removê-la do lugar onde se achava, de abaixar um dos seus braços, ou mesmo uma das suas mãos.
                Quando, porém, os objetos das suas contemplações eram mais tristes, por exemplo, a paixão do Salvador, o pecado, o purgatório, ela tornava-se triste, acabrunhada e trêmula, proferindo palavras ou fazendo gestos de tristeza e de compaixão.
                Em outras ocasiões, ela não somente se tornava imóvel, mas ia de um lugar para outro, por vezes com uma rapidez incrível. Ou, então, executava trabalhos que lhes seriam absolutamente impossíveis, em circunstâncias e condições ordinárias.
                Na vida religiosa e espiritual é difícil encontrar coisa que seja menos perigosa do que ter visões, raptos, êxtases e outros semelhantes. A razão é que neste particular o demônio muito mais facilmente se transforma em anjo de luz, e que a própria imaginação, tendo chegado a um certo ponto de exaltação é capaz de produzir tais efeitos. E quando a inclinação ou predisposição da pessoa já vão para aquele lado, o perigo é maior. O que se dá mais facilmente e mais frequentemente, com mulheres. Basta ler os avisos sábios e práticos que Santa Teresa de Jesus nos deixou em suas obras.
                A própria Maria Madalena temia muito este perigo. Cada vez que lhe sobrevinha alguma coisa extraordinária ela desconfiava que houvesse qualquer engano e pedia a Deus que a livrasse das manhas do demônio. Levada por sua humildade, ela pedia conselho aos seus confessores. Esta desconfiança de si mesma, acompanhada de uma pureza de vida tão grande, era já uma prova da origem sobrenatural do que lhe acontecia. O próprio Deus, no entanto, dignou-se intervir e fornecer maiores provas.
                Durante os êxtases de Pentecostes do ano de 1585, Nosso Senhor já lhe havia dado o aviso de que passados os cincos anos de provações, ela iria ter como confessor um Pe. Jesuíta e mais outro sacerdote, os quais haviam de sossegá-la plenamente, quanto aos seus êxtases. De fato, a comunidade perdeu, ao cabo daqueles cinco anos o seu confessor, o qual foi substituído pelo Cônego Penitenciário do Cabido, Francisco Benevenati. Maria Madalena prestou a este contas completas do seu estado espiritual, enquanto a Madre Priora lhe fez a comunicação dos apontamentos, feitos durante os êxtases. O confessor aprovou tudo. Mas, não querendo confiar unicamente no seu próprio juízo, em matéria tão delicada e importante, ele conseguiu a nomeação do Pe. Fabrini, reitor dos Jesuítas, para confessor extraordinário. Este era o padre, que havia sido prometido a Maria Madalena, para o consolo da sua alma. Deus lhe mandou que fizesse a este sacerdote uma comunicação completa de seu estado, como ela havia feito com o Cônego. Obedecendo, Maria Madalena foi ter com a Madre Priora e o confessor ordinário. Ambos estavam de acordo, fazendo ainda a entrega de quatro volumes de apontamento. Depois de ter ouvido e lido tudo, com grande atenção, o Pe. Fabrini declarou que não encontrava nada de suspeito e que se podia admitir a origem divina daquelas iluminações.