Teresa de Jesus Missionária

Teresa de Jesus Missionária
Extrato da conferência do Pe. Salvador Garcia, OCD, por ocasião do Congresso Missionário OCD, em São Roque/SP, de 24-26/07/2012
TERESA DE JESUS: MULHER DE GRANDES DESEJOS
Em 1565, quando escrevia a redação definitiva do Livro da Vida, Teresa definiu a si mesma como uma  mulher de grandes desejos: “É verdade que, no tocante aos desejos, os meus sempre foram grandes” ( V 13,6), “sou a própria imperfeição, exceto nos desejos e no amor” (V 30,17). Desejos que atravessam o livro,  de cima abaixo, do começo ao fim, desde os prematuros desejos infantis em busca do martírio rápido nas mãos dos mouros (V 1,5) até os impetuosos desejos de serviço expressos em seu conhecido dilema de morrer ou padecer” (V 40,20).
Destes desejos apostólicos, ela diz expressamente que tiveram um itinerário comum com sua experiência de oração, que à medida que esta ia se intensificando, iam crescendo também aqueles: “porque este desejo de que outros servissem a Deus, eu o tinha desde que comecei a fazer oração” (V 7, 13; cf. 6, 3; 7, 10; 8, 3; 8, 12).  Parece lógico que fosse assim, porque o amor de Deus, como já havia lido em Osuna, “mais dilata do que ocupa” , de maneira que se a experiência orante produzia nela uma dilatação da alma, um alargamento de sua capacidade (Deus capacita para amar), esta se convertia por sua vez numa fonte geradora de fervorosos desejos apostólicos: “As virtudes ficam com isso mais fortes, porque aumentam os desejos e fica mais claro para a alma o poder desse grande Deus (…) Penso que devem vir daqui esses desejos tão imensos de que salvem as almas e de ter participação nisso” (R 5,10)
Desejos apostólicos que ela expressa reiteradamente e de muitas maneiras: “Sinto em mim o desejo enorme, maior do que de costume, de que Deus tenha pessoas que O sirvam com todo o desapego e que em nada das coisas de cá se detenham, – porque vejo que tudo é engano – particularmente, os letrados: porque, como vejo as necessidades da Igreja, que muito me afligem, pois me parece equívoco ter pesar por outra coisa” (R 3,7). Teresa começa a dar mostras da alma que guarda tesouros do céu e a ter desejos de reparti-los com os outros, suplicando a Deus que não seja ela a única abastada (rica). Ela passa a beneficiar os que lhe são próximos sem o saber e sem nenhum esforço pessoal (V 19,3); “porque as virtudes ficam tão fortes e o amor tão inflamado que não é possível esconder, porque outras almas, mesmo sem querer, disso obtêm proveito” (Conceitos 6,12); “já são almas fortes escolhidas pelo Senhor para fazer o bem a outras” (V 21,11); para terminar dizendo de si mesma: ” acontece muitas vezes de Nosso Senhor tirar almas de pecados graves e levar outras a uma maior perfeição devido a súplicas minhas. No tocante a tirar almas do purgatório e outras coisas especiais, são tantas as graças que o Senhor me concede, mais em termos da saúde das almas do que da dos corpos. Isso é coisa notória, havendo inúmeras testemunhas” (V 39,5); e assim “vejo como Senhor quis dar dessa maneira um corretivo a muitas almas (porque tenho visto com clareza e me recordo de quanto passaria pelo Senhor em benefício de uma só alma), pouco me importa o que dizem de mim” (V 40,21).
Tudo isto a levaria ao convencimento, por uma parte, de que tais experiências e graças não eram para si, senão para os demais, para proveito de outros: “Não costumais, Senhor, conceder semelhantes riquezas e benefícios a uma alma, a não ser para que muitas aproveitem” (V 18, 4; 5M3, 1-2); e por outra, “o Senhor concede essas graças muito mais às mulheres do que aos homens”, que as mulheres são mais adiantadas que os homens nos caminhos do Espírito, ainda que ao dizer isto tivesse que ter bastante prudência e respaldar sua convicção na autoridade de pessoas indiscutidas: “como me disse o frei Pedro de Alcântara e como eu mesma observei. Para ele, nesse caminho elas vão mais longe do que eles; ele apresentava excelentes razões, todas em favor das mulheres, que não é preciso repetir aqui” (V 40,8).
A experiência mais decisiva, neste sentido, teve lugar a finais de 1560, e foi uma espantosa visão imaginária do inferno, “desejava o Senhor que eu visse com os meus próprios olhos aquilo de que a Sua misericórdia me livrara” (V 32,3), visão que qualificaria como “uma das maiores graças que o Senhor me concedeu, pois me trouxe grandes proveitos” (V 32,4), sobretudo porque foi o prelúdio de sua missão apostólica a serviço da Igreja: “isso também criou em mim uma grande compaixão pelas muitas almas que se condenam (em especial dos luteranos, que já eram, pelo batismo, membros da Igreja) e intensos desejos de salvar almas, pois tenho a impressão de que, para livrar uma só delas de aflições tão graves, eu voluntariamente enfrentaria muitas mortes” (V 32, 6).
Trata-se de uma profunda solidariedade com a humanidade pobre e pecadora, virtude à qual até então ela era naturalmente alérgica e que descobriu por efeito de conversões anteriores: “Parece-me que tenho muito mais piedade dos pobres do que costumava. Sinto em mim uma grande lástima e desejo de remediar a situação, a ponto de, se seguisse a minha vontade, dar-lhes minha própria roupa. Nenhum asco tenho deles, trato com eles e os toco. E isso vejo agora que é um dom de Deus, já que embora, por amor a Ele desse esmolas, eu não tinha piedade natural. Sinto uma reconhecida melhora neste aspecto” (R 2, 4). Foi então quando Teresa decidiu fazer o voto daquilo que é mais perfeito: “Imaginando o que poderia fazer por Deus, pensei que a primeira coisa era seguir o chamamento que Sua Majestade me tinha feito para ser religiosa, respeitando a minha Regra com a maior perfeição possível” (V 32,9).
A resposta à sua pergunta sobre o que poderia fazer por Deus naquela Igreja  se materializou no projeto fundacional de São José de Ávila, que seria o primeiro mosteiro dedicado a São José em toda a cristandade, e cuja ideia germinal surgiu precisamente em sua cela na Encarnação, convertida em cenáculo de espirituais:
“Certa vez, estando na companhia de uma pessoa, disseram a mim e a outras que se quiséssemos ser monjas à maneira das Descalças, seria talvez possível fundar um mosteiro. Eu, como o desejava, comecei a tratar disso com aquela senhora minha companheira (dona Guiomar de Ulloa), que tinha o mesmo desejo” (V 32,10)
O estilo de vida em que pensava a fundadora, e que pouco a pouco foi cristalizando em seu convento de São José de Ávila,  teve ao princípio elementos herdados das reformas franciscanas, de São Pedro de Alcântara sobretudo, e coincidentes em parte com o carmelitanismo eremita primitivo. Inicialmente o mosteiro foi projetado como simples casa de experiência e uma filial da Encarnação, como precisa Pe. Ribera com absoluta clareza: “Sua intenção primeira não foi mais que fazer um mosteiro onde ela e as que a seguissem com mais reclusão e rigor, pudessem guardar o que haviam prometido ao Senhor, conforme a vida que abraçaram; não era uma nova experiência religiosa mais um aperfeiçoamento da vida religiosa da Ordem de Nossa Senhora do Carmo”. F. DE RIBERA, La Vida de la Madre Teresa de Jesús, o.c., p. 126)
Todavia, o fechamento e rigor não equivaliam para ela a falta de incomunicação. E ainda mais: tem-se a impressão de que o locutório de São José era bastante frequentado e a certeza de que ela estava inteirada do que ocorria fora da clausura, nos reinos da Espanha e na Igreja. Foi esta sensibilidade eclesial que determinou a expansão do projeto teresiano, até ao ponto de que por ela – segue Pe. Ribeira – “levantou mais alto seus pensamentos e acrescentou à penitência e pobreza que antes havia pensado e traçou seus planos de outra maneira”.
A mudança foi tão considerável que a partir de então começaria a introduzir novos elementos, além das já conhecidas novidades como a convivência incondicionalmente igualitária de suas monjas, sem diferenças pelos sistemas de dotes, com o trabalho manual de todas, um estilo de vida alegre, o ambiente propício para a experiência de oração tão sua, e sobretudo o serviço à Igreja, concretizado na resposta orante às necessidades urgentes daquele momento. Devia ser no final de 1565 quando tomou plena consciência dos hereges “luteranos” da França. E pouco depois, no verão de 1566, do problema eclesial: a evangelização dos índios.
A MISSÃO ESPIRITUAL DE TERESA DE JESUS: Salvar as almas
Dos cinco primeiros anos em São José de Ávila, a fundadora recordará sempre duas coisas: “a primeira, que foram os mais calmos de minha vida, como agora o percebo; sinto muitas vezes saudades do sossego e da quietude de então” (F 1,1), e a segunda, que ali cresceram incontidamente seus desejos apostólicos, do bem das almas. Sobre isto, escreve em 1573: “É verdade, contudo, que o tempo fazia crescer em mim o desejo de contribuir para o bem de alguma alma: eu muitas vezes sentia-me como quem tem um grande tesouro guardado e deseja dá-lo para que todos gozem, mas tem as mãos atadas para poder distribuí-lo. Eu tinha a impressão de estar com as mãos atadas dessa maneira porque eram tantas as graças recebidas naqueles anos que me pareciam mal empregadas apenas em mim. Eu servia ao Senhor com minhas pobres orações e procurava que as irmãs fizessem o mesmo e valorizassem  muito o bem das almas e o progresso de Sua Igreja. Quem com elas se relacionava saía edificado. E nisso se embebiam os meus grandes desejos” (F 1,6).
Foi nesta situação, no verão de 1566, quando Teresa recebeu a visita do Pe. Alonso Maldonado, que vinha das Índias, da Nova Espanha (México), que com sua conversação no locutório de São José de Ávila lhe abriu um horizonte novo, até então desconhecido para sua enxurrada de desejos.
“Cerca de quatro anos, depois, ou mais, recebi a visita de um franciscano, Frei Alonso Maldonado, grande servo de Deus, movido pelos mesmos desejos meus com relação ao bem das almas. Tive grande inveja dele ao ver que podia realizá-los. Tendo chegado das Índias há pouco tempo, ele me contou que lá, por falta de doutrina, perdiam-se muitas almas. Depois de nos fazer um sermão e prática, e de nos estimular a fazer penitência, partiu” (F 1,7)
Até então, na realidade, o que ela sabia das Índias eram notícias  enviadas por seus irmãos, porém mais interessados por preocupações materiais que pelas propriamente evangelizadoras. No geral, a ideia que tinham os espanhóis sobre as Índias se viu influenciada pela presença e publicidade dos missionários encarregados de fazer propaganda de seus trabalhos.
A reação de Teresa:
“Sobreveio-me uma profunda tristeza e fiquei quase fora de mim, diante da perdição de tantas almas. Recolhi-me a uma capela e, coberta de lágrimas, clamei a Nosso Senhor, supliquei-lhe que me desse recursos para salvar uma única alma, já que tantas o demônio levava” (F 1,7)
Deste modo, como no caso dos luteranos, Teresa tomou consciência da realidade missionária das Índias, assim como de seu próprio espírito naturalmente apostólico, da “grande vontade de ajudar as almas a caminhar para Deus” (F 2,3), e determinou fazer o que pudesse para a salvação dos índios:
“Senti muita inveja dos que, por amor a Deus, podiam dedicar-se à salvação de almas, mesmo em meio a mil mortes. Ao ler nas vidas dos santos as conversões que eles fizeram, aumenta muito a minha devoção, ternura e inveja por esses feitos do que por todos os martírios que suportaram. Deus me deu essa inclinação já que acredito eu, Ele valoriza mais o esforço e a oração para ganharmos para Ele uma alma, por sua misericórdia, do que todos os serviços que Lhe possamos prestar” (F 1,7).
Esta é sem dúvida uma passagem bem eloquente, que fala por si só do natural espírito missionário de Teresa; passagem que não agradou aos superiores da época quando a viram impresso na edição príncipe que fez o Pe. Granciano (Bruxelas 1610). Eles  trataram com descrédito o editor e negaram publicar esta passagem nas edições posteriores, precisamente por sua aversão às missões, a tudo que não fosse a estrita observância regular.
Ganhar almas, salvar almas, levar almas pra Deus, são termos comuns com os quais santa Teresa define tanto o fim da ação evangelizadora como o da vida espiritual: “Para isto é a oração, filhas minhas, para isto serve este matrimônio espiritual: para que nasçam obras, sempre obras! (…) Desejo, irmãs minhas, que procuremos alcançar exatamente esse alvo. Apreciemos a oração e ocupemo-nos dela não para nos deleitar, mas par ter essas forças para servir (…) Seu manjar consiste em que se salvem e louvem  a Deus para sempre (7M4, 6. 12)
E assim, Teresa o propôs a seu venerado Pe. Granciano, revelando-lhe primeiro o sentido de seu projeto fundacional: “Cada dia vou entendendo mais o fruto da oração e quanto deve ter valor  diante de Deus uma alma que só por honra de sua majestade  pede remédio para outras. Acredite, meu pai, que se vai cumprindo o desejo com que se começaram os mosteiros, que foi para pedir a Deus a sua assistência para aqueles que defendem sua honra e trabalham em seu serviço, já que nós, sendo mulheres, de nada valemos. Quando considero a perfeição destas monjas, não me espantarei de qualquer coisa que alcançarem de Deus” (Carta 154)
Neste sentido, o Pe. Graciano chegaria a ser a testemunha do espírito missionário de Santa Teresa, a quem lhe atribui a iniciativa de haver enviado frades às índias ocidentais e aos Reinos de Congo, na Etiópia, tudo com conselho e ajuda da própria madre.

 


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