Sta. Maria Madalena de Pazzi

SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI
Por: Frei Alberto Yubero Perdices, O.Carm.
I- DADOS HISTÓRICOS
Nasceu em Florença, a 02 de abril de 1566. É curioso notar que, no dia seguinte ao nascimento, aconteceu o providencial encontro, em Medina del Campo, entre Teresa de Jesus e João da Cruz.
Irmã Francisca Tovaglia, escrevendo sobre Madalena, diz que na infância ela repete os traços com os quais as biografias religiosas costumam frequentemente descrever esta fase da vida dos santos: a seriedade, a prudência, inclinação à solidão e a ausência de atos ou gestos infantis.
Madalena tinha em comum com sua mãe o gosto pela vida espiritual. A mãe, vendo que sua filha era muito dada às abstinências e vigílias, não era favorável à tendência que via nela à vida religiosa.
Tendo necessidade de deixar sua casa, por causa do cargo de Prefeito, o seu pai encomendou o cuidado da pequena ao mosteiro de São João dos Cavaleiros da Ordem de Malta. Neste eram estritamente observadas a obediência e a pobreza, e uma característica importante era a prática assídua da Eucaristia. Neste Mosteiro, os Jesuítas exerceram grande influência. Embora as religiosas convidassem-na para que ficasse ali, o seu diretor espiritual, Padre Blanca, sugeriu-lhe que ingressasse noutro mosteiro observante, como era o convento carmelita de Santa Maria dos Anjos. Eram estas as características deste mosteiro: leitura devota, exame de consciência, comunhão frequente, ofício em coro e meditação em comum.
Assim, pois, aos 16 anos, foi viver na hospedaria do mosteiro para conhecer mais de perto o estilo de vida das Carmelitas. O fato das monjas carmelitas terem o privilégio de comungar diariamente foi o que a moveu de maneira especial a ingressar no mosteiro a começos do advento de 1582. Dia 08 de dezembro desse mesmo ano, foi aceita pelas monjas. Mas adiante exclamaria: “Não há tempo mais favorável para inflamar-se no amor que o que segue à comunhão”.
Seu nome era Catarina e por ocasião da sua tomada de hábito, em 30 de janeiro de 1583, trocou seu nome pelo de Maria Madalena. O ano de noviciado encerraria, portanto, no final de janeiro de 1584. Como no mosteiro costumavam fazer a profissão por grupos, ela solicitou que professasse com o grupo que havia começado o noviciado um pouco antes que ela. Como ainda não havia completado um ano, não lhe permitiram isso. Contudo, não teve que esperar o grupo seguinte, já que no começo de março caiu gravemente enferma, e a priora e o confessor decidiram que fizesse a profissão, por temerem sua morte[1].
A partir do dia de sua profissão começaram os êxtases, de uma maneira mais ou menos continuada, até tal ponto que a chamariam “a Santa dos êxtases”. Em alguns destes êxtases, entre soluços e lágrimas exclamava: “Ó Amor! Não és conhecido nem amado! Como és ofendido! ”.  Nota-se a influência de São Paulo, pois nos diz no livro Quarenta Dias: “Não sabia se estava morta ou viva, se no corpo ou na alma, se na terra ou no céu. Só via Deus, todo glorioso, amar a Si, ser Trindade indivisa na Unidade…”
Os êxtases começavam cada dia enquanto comungava. Seu inflamado rosto ficava iluminado e exclamava: “Oh, meu Jesus, dá-me uma voz forte que ouça o mundo inteiro. O pérfido amor próprio nos impede de conhecer-Te, Senhor. Amor, faz que tuas criaturas não amem outra coisa senão a Ti! ”.
Normalmente as visões duravam até a meia tarde, depois lhe retornavam o mal-estar e a febre. Em um dos seus delírios místicos, manifesta o valor purgativo do sofrimento: “Entendi que todas as almas que padecem neste mundo e deixam fluir o sangue de Jesus sobre elas, ficam diante de sua Divina Majestade limpas e belas. Se uma alma pudesse compreender a grandeza que é amar a Deus quase se desfaria em inefável doçura”. Daí seu lema: “Pati, non mori”, padecer, não morrer.
Sofreu ao longo de sua vida fortes tentações quando ela esteve no que chamava “o lago dos leões”. Tudo lhe vinha em forma de padecimentos, torturas, lutas, assaltos do diabo, moléstias e cansaço. Escutava: “Deus não existe, os santos não se recordam de ti, és néscia se buscas Jesus na Eucaristia”. Porém ela conhecia o texto da carta aos Hebreus: “Jesus, Pontífice misericordioso, tendo ele mesmo passado pela prova é capaz de socorrer os que são provados” (Hb 2,17-18).  Também lhe ajudou um dos textos de seu “pai”[2]: “Cristo sacerdote ora por nós e em nós”.
Longo foi o tempo da prova. Como o Verbo lhe havia anunciado ela se viu privada durante cinco anos do “sentimento e gosto da graça”.
Ela, apesar de sua juventude, teve que assumir cargos de responsabilidade com as noviças. Como mestra ensinava-as os caminhos para chegar à união com Deus, tendo em conta o que dizia o Senhor: “Muitas almas querem meu Amor, mas o querem conforme lhes agrada, e por isso se tornam incapazes de consegui-lo”. É o mesmo que dizia São Bernardo: “Vês uma pessoa perturbada? A causa é que não pode fazer o que deseja a sua vontade”. Para não cair nisto Madalena diz que “devemos dirigir nossas súplicas pedindo-Lhe luz e força para fazer Sua vontade”.
Assim transmite a suas noviças a mensagem sobre a humildade: “A humildade é sentir prazer com o próprio desprezo”, “humildade é a contínua persuasão de não ser nada e o contínuo alegrar-se no desprezo de si mesma”. Apoiava-se dizendo que “no inferno pode haver apóstolos ou virgens, porém não poderá nunca haver almas humildes”.
Tinha também um claro conceito da obediência. Dizia: “prefiro obedecer a fazer oração, pois obedecendo estou segura de fazer a vontade de Deus, o que não estou tão certa se faço outra atividade”. E chegava ao extremo de afirmar que “a perfeita obediência pede uma alma sem juízo”. Pouco amor mostrariam a Deus as noviças se não fossem capazes de renunciar a si mesmas por amor, estimando muito mais as obras feitas por obediência e amor, mesmo que fossem simples e humildes em si mesmas, que outras de grande perfeição.
II- SITUAÇÃO DA IGREJA
Para compreender o conteúdo das “Cartas da Renovação” e o espírito que as anima, é necessário situar-se no contexto eclesial do século XVI.
Em 1516, quando Madalena nasce, a obra da reforma conciliar apenas tinha começado. Era o pontificado de São Pio V, que passou à história tanto por sua santidade quanto por seus dotes especiais de governo num momento bastante crítico.
A França está vivendo suas guerras de religião com o triste massacre dos huguenotes na famosa “noite de São Bartolomeu”. Na Inglaterra, as vicissitudes religiosas culminam com a solene excomunhão da Rainha Isabel por parte de Pio V, que é o último passo para a ruptura definitiva com Roma.
O império otomano ameaça cada vez mais a Europa cristã. Carlos V, na paz de Augsburgo, se vê obrigado a fazer concessões aos protestantes para assegurar sua ajuda contra os mulçumanos que dominam os Bálcãs e o Mediterrâneo.
Sucede também neste tempo a famosa batalha de Lepanto, com o triunfo sobre os turcos. E isto, como se diz, aconteceu graças à intercessão da Virgem Maria e aos méritos de um pontífice santo: um homem que parece querer esquecer suas implicações políticas para deixar seu nome unido à reforma litúrgica e ao novo catecismo do Concílio de Trento: o Catecismo de São Pio (1566).
Após Pio V, veio Gregório XIII, que seguiu a linha de seu predecessor e com o qual colaborou São Carlos Borromeu. Porém, o papa sob qual pontificado Madalena vive sua plena vida espiritual é Sisto V. Ela o vê durante um êxtase, poucos dias depois de ser eleito, e mostra ter confiança no seu zelo: “Levava na mão uma grande cruz. Andando, indicava com ela o caminho ao qual dirigia as pessoas para que pudessem caminhar com segurança”.
III- A IGREJA FLORENTINA DO SÉCULO XVI
Vamos dar uma olhada na Igreja florentina, a que Maria Madalena encontrou ao vir ao mundo e na qual continuou sentindo-se viva dentro dos muros de seu mosteiro.
O século XV concluiu-se com a condenação e execução de Jerônimo de Savonarola[3] (23 de maio de 1498), um personagem marcado pelo sempre difícil equilíbrio entre valores humanos e valores religiosos. Porém a seiva do seu espírito segue vivificando lugares e figuras florentinos do século XVI.
Entre estas é emblemática a venerável Domingas de Paradiso (1473-1553), uma mística muito próxima, na linguagem, à Madalena. É uma espécie de monja leiga, dividida entre os impulsos místicos da vida eremítica e dotes concretos de líder que a levam a construir ao seu redor um cenáculo, centro de vida espiritual e política radicada na realidade em que vive. Funda também o mosteiro de Crocetta, ao qual Maria Madalena se dirigira antes de escolher definitivamente o de Santa Maria dos Anjos.
Domingas é uma mulher inquieta que anda sempre “em busca de não fáceis equilíbrios entre ação e contemplação, renovação da Igreja e reforma interior, amor ao mundo e sua relativização, importância da razão e preeminência do amor”.
As ânsias de reforma correm o risco de levar os saudosos de Savonarola a aplaudir Lutero. Porém a vigilância contra a heterodoxia é férrea. Sabe-se que em janeiro de 1552, “foram encarceradas em Florença muitas pessoas manchadas de heresia luterana”. Fez-se um ato de fé contra vinte e duas pessoas, que foram obrigadas a atravessar a cidade vestidas com capas pintadas com cruzes e figuras demoníacas. Chegadas a Santa Maria del Fiore, tiveram que benzer-se publicamente após o ato de contrição, enquanto na praça se queimavam os escritos heréticos que pertenciam a elas.
São cenas que parecem servir de fundo às imagens e à linguagem de Maria Madalena quando, durante os êxtases, fala dos hereges que tanto pesar causam à “esposa Igreja”.
IV- UMA VIDA RELIGIOSA EM DECADÊNCIA
Em 1552, havia em Florença bastantes mosteiros: 15 masculinos e 45 femininos com 2.786 monjas, para uma população de 60.000 habitantes. Era urgente uma reforma “porque hábitos de vida fácil haviam apagado a vitalidade do carisma original”.
A situação é grave quando se trata de mosteiros femininos que não estão unidos a nenhuma congregação: “A indisciplina, a interferência de famílias nobres, a entrada forçada no mosteiro, a inobservância da clausura e da solidão por causa da permanência no convento de nobres mulheres com seu séquito, tornam estes mosteiros irreconhecíveis, enquanto que a má fama que os rodeia induz, em muitos casos, as autoridades civis, além das eclesiásticas, a intervir judicialmente”[4].
Denuncia-se dessa época que “com o pretexto de visitá-las para celebrar os ofícios divinos, não poucos sacerdotes e frades vão fazer banquetes e consumir o pouco que têm os mosteiros, passando o resto do dia em conversas vãs nos locutórios. Nas celas de alguns frades da Santa Cruz os enviados do vigário arcebispal encontraram “certos sonetos muito lascivos”.
Diante deste panorama, Santa Maria Madalena podia sentir-se bastante satisfeita com seu mosteiro de Santa Maria dos Anjos. A documentação histórica mostra que a vida era sóbria e exemplar. E sobretudo havia um desejo de melhora, sem o qual o edifício de toda a vida cristã pode vir a ruir.
Irmã Maria Madalena é consciente de que o impulso interior que a impele a ação externa nasceu nela da contemplação do “desígnio de salvação escondido durante séculos e revelado em Cristo”, como disse São Paulo. E agora sente que contemplou que Deus quer servir-se dela para que o que recebeu seja manifestado ao “exterior”.
“Chegou o tempo determinado e predestinado ‘ab aeterno’ na mente de Deus, desejado por seus servos do passado e do presente, o tempo de renovação de sua esposa, a Igreja”.
“Forçada e obrigada pela doce Verdade” é Deus quem a sustenta no anúncio do desígnio de renovação que já outras pessoas esperaram no passado. Talvez aqui Maria Madalena escute ainda o eco da renovatio pregada por Savonarola. Porém é de Catarina de Sena de quem toma forma e modos para a obra que vai começar.
Agora lhe cabe dar a conhecer a renovação espiritual querida por Deus: “A doce Verdade não avisa nem busca que se faça tal renovação numa só cidade ou num castelo, mas em todo o universo”.
É uma obra que exige especial dedicação por parte daqueles aos quais Maria Madalena dirige suas cartas: o Papa, os cardeais da cúria, o arcebispo Alexandre de Médicis, o reitor dos jesuítas, o guardião dos Mínimos, irmã Verônica de Cortona, irmã Catarina de Ricci.
Não se trata de um vago projeto, mas de uma verdadeira reforma. Maria Madalena tinha consciência de que devia realizar uma obra concreta, que tinha que levar a cabo, através de sua intervenção, e esta não puramente mística. Sente como um “peso”, uma força que interiormente a empurra: o “doce querer” de Deus.
Porém a renovação não se realizou ainda de todo; de modo que o grito de Madalena chega até nossos dias, até nós.
V- RENOVAÇÃO DA IGREJA
Maria Madalena de Pazzi era uma grande admiradora de Santa Catarina de Sena e tinha em comum com ela, entre outras coisas, o zelo pela reforma da Igreja.
Quem ia pensar que Deus encomendaria missão tão importante a uma monja contemplativa? Parecer-nos-ia normal que um Concílio ou um Papa levasse adiante tal missão, porém não uma monja de clausura, sem contato algum com a sociedade[5].
O mesmo pensamento de levar adiante essa tarefa de conscientizar a hierarquia era algo que ia além das próprias forças, até ao ponto que desejaria morrer mil vezes a enviar sua mensagem às altas hierarquias. Em algum momento também lhe passou pela cabeça que fosse obra do demônio, daí que consultasse autoridades competentes que lhe asseguraram o sobrenatural desta missão. Ela chegou a consultar tanto os dominicanos como os jesuítas e todos lhe afirmaram o mesmo, que as revelações não eram produto de uma mente doentia. Daí que ela “determinou-se a aceitá-lo, superando a natureza, as forças e o querer”.
Para a obra de renovação da Igreja, Deus escolhe também uma monja quase sem formação e que permanecerá encerrada entre os muros do mosteiro.
Na introdução às doze cartas que escreveu, diz a redatora que este livro foi escrito por revelação do Senhor sobre a renovação da Igreja. Com este fim escreveu algumas cartas, em êxtase, ao sumo Pontífice e a outros prelados e o povo de Deus.
Em todas as cartas Madalena vibra de paixão pela Igreja. As mesmas vão dirigidas a pessoas que estão em pontos estratégicos desde os quais deve iniciar-se a obra de renovamento.
Carta a Sisto V. Madalena lamenta-se de ser ela chamada a impulsionar a reforma da Igreja, pois vê que isto é bem mais tarefa da Hierarquia e dos que a representam. Os religiosos e sacerdotes serão meros colaboradores. Por isso, a estes, não lhes exorta, em primeiro lugar, renovar a Igreja, mas renovar-se a si mesmos, para que depois sejam dignos colaboradores do Papa e dos Bispos. Cinco serão as virtudes que devem ser cultivadas pelos que vão colaborar na restauração da Igreja: pobreza, pureza, caridade, paciência e perseverança. A renovação da Igreja preceder-se-á pela renovação de cada um, a começar pelo Papa.
Apesar do Papa ter um bom projeto de renovação, nem sempre foi capaz de realizá-lo, sobretudo no que se refere à atenuação das penas impostas ou ao desprendimento das riquezas, o nepotismo e o deixar-se aconselhar pelos demais[6]. Daí que a renovação da Igreja não passou, em muitos aspectos, de um simples desejo. E termina a carta ao Papa: “Peço-vos perdão por tudo o que disse além da inspiração e da vontade de Deus; e, ademais, se parecer não se tratar da vontade de Deus, peço uma conveniente penitência por isso… Como serva inútil, vos peço sua santa bênção”.
Carta aos Cardeais da Cúria. Uma semana depois de escrever ao Papa, envia outra aos Cardeais da Cúria. Utiliza uma linguagem bastante diplomática para ver se assim consegue chegar mais a eles e convencê-los. Uma vez que lhes chamou de “ministros e membros principais da Igreja”, talvez para satisfazer sua vaidade, pede-lhe que sejam obedientes ao Papa e que se despojem de toda comodidade e de respeitos humanos. A exemplo de Pedro, exorta-lhes que busquem só e em tudo a salvação dos povos.
Recorda-lhes que a renovação da Igreja há de começar pela renovação dos seus filhos mais ilustres, como são eles, e lhes põe como exemplo “a esse que, em nossos dias, deixou um exemplo de santidade, como sabeis melhor que eu, desde o momento que conversou convosco: o beatíssimo cardeal Borrromeu”[7].
Pede-lhes que sejam membros sãos porque “devem saber que, às vezes, a cabeça não pode cumprir seu dever porque os membros do corpo estão enfermos”[8]. Anima-lhes a trabalhar pelo bem maior da Igreja e termina oferecendo-lhes suas orações para que possam cumprir sua nobre missão.
Ao Cardeal de Florença. Ao seu arcebispo, o Cardeal de Florença, chegou a escrever-lhe até três cartas. Sua norma era começar pedindo perdão por atrever-se a dirigir-se aos mandatários da Igreja ou aos que representavam a autoridade das Ordens religiosas. No caso do seu Cardeal, por convidá-lo para visitar o mosteiro. Ela quer comunicar-lhe algumas verdades, que não serão exortações ou conselhos humanos, pois outros poderiam melhor aconselhá-lo, mas que vêm de Deus. Ele, em um claro discernimento, poderá ver, com clareza, “se tal coisa procede de Deus ou de seu inimigo”. Ela está disposta, em todo momento, a aceitar tudo[9].
Não recebeu resposta alguma a essa carta e insiste enviando-lhe outra na qual roga-lhe que “como amante de Deus e ansioso zelador da salvação das almas” vá ao mosteiro para esclarecer-lhe a verdade, e como se trata de algo muito importante que “não intercale mais tempo” para “fazer o que Deus quer em sua santa Igreja, dada a vós para que a custodie”. Sem “forçar-lhe” nem “provocar-lhe” mais se despede pedindo humildemente a sua bênção[10].
Esta carta teria a mesma sorte que a anterior, e sem dar-se por vencida, se dispõe a enviar ao Cardeal uma terceira. Ela está disposta a “repetir as muitas notícias já dadas, ainda que não conhecidas por vós… Empurra-me o amor que quis permanecer no Santíssimo Sacramento”. Termina a carta dizendo-lhe que: “não coloque a atenção nem em bens, nem em honra, nem no corpo, nem na vida para cumprir a doce vontade de Deus”[11].
O mais provável é que o Cardeal não tenha lido as cartas, pois nunca chegaram em suas mãos. O curioso é que Madalena teve a ocasião de falar com o cardeal, não como consequência de alguma das três cartas, mas porque teve que ir ao mosteiro para presidir a eleição da Priora. Todos os esforços para evitar isso, por parte da comunidade e do confessor, foram inúteis. Ela caiu em êxtase desde a manhã, e apesar das tentativas de retirá-la da sala capitular, não conseguiram nada. Nem as religiosas mais fortes puderam fazer nada. Madalena teve a oportunidade de falar com o Cardeal, durante meia hora, sobre a reforma dos religiosos. O cardeal ficou assombrado com o que ela dizia e assim comentou aos que o acompanhavam: “Verdadeiramente esta filha falou na pessoa do Espírito Santo”.
Como a São Felipe Neri, nossa santa revelou-lhe que ocuparia a cátedra de Pedro, mas que só permaneceria por poucos dias. Realmente a profecia se cumpriu. Foi eleito a 01 de abril de 1605 e tomou o nome de Leão XI.  Faleceu dia 26 do mesmo mês.
Carta aos religiosos[12]. Ela via que falar de renovação espiritual sem primeiramente preocupar-se com a transformação dos religiosos seria como fazer uma construção começando pelo teto e esquecendo de colocar os alicerces e levantar as paredes. “São eles que traem, açoitam, crucificam” o Verbo humanado, “rompendo o voto de obediência, pobreza e castidade”. E quem que observa a castidade “com sua soberba crucifica o Senhor”, e aqueles que observam os três votos o ofendem com “o amor próprio”.
Madalena sabia que os religiosos ocupavam um lugar importante na Igreja, pois o povo os seguia com maior docilidade que aos seus próprios pastores. Em Florença, tivera o exemplo de um religioso, Savonarola, capaz de arrastar multidões com sua pregação. Ela era consciente disso como o era também da repugnância de muitos religiosos em aceitar as reformas tridentinas, especialmente em matéria de votos.
Confiava nos Dominicanos, Jesuítas e Mínimos e a eles escreveu[13].
Carta ao Pe. Ângelo, dominicano. Dirige-se a ele com veementes palavras e lhe diz que “chegou o momento em que os servos devem executar o que Ele quer” e denuncia “as esposas desunidas (as religiosas) com todos os demais religiosos que vivem hoje no mosteiro de modo tão contrário à vocação à qual Deus lhes chamou, não observando os votos que prometeram”. Convida-lhe a que proceda “com a sabedoria e a prudência que Deus lhe deu”.
Carta ao Pe. Fabrini, Jesuíta. Exorta-lhe a que torne conhecida ao Cardeal “a ignorância em que sem encontram suas ovelhas, especialmente as consagradas a Deus mediante os três votos emitidos na profissão, prometidos por muitos e observados por poucos”. Como se vê, insiste uma vez mais no cumprimento dos votos. Ao Pe. Blanca, também jesuíta, diz-lhe claramente que a renovação da Igreja “procederá daqueles que administram o mesmo sangue que ministrais vós e das desunidas esposas suas que prometeram os mesmos votos que vós e eu”.
Ao Pe. Guardião dos Mínimos. Faz-lhe ver que chegou o tempo de renovação da Igreja, e, portanto, se deve “ajudar a dispor as criaturas para a renovação da Igreja… e agora chegou o momento determinado. E deve começar pelos religiosos e religiosas consagrados a Deus, fazendo que sejam observados os principais votos que prometeram em sua profissão… trate de fazer saber e compreender que os religiosos e religiosas devem observar seus três votos… e não dê menos ajuda com suas palavras que com o exemplo”[14].
Sendo ela monja de clausura também dirigiu às contemplativas três cartas: uma a Verônica de Cortona e duas a Catarina de Ricci.
Em alguns aspectos, não era este o caso do seu mosteiro. A situação dos mosteiros de clausura era bastante parecida com a que se vivia nos tempos de Santa Teresa de Jesus e que levaria à Reforma do Carmelo. Isto era perceptível naqueles mosteiros que não estavam vinculados a Ordem alguma.
“A indisciplina, a interferência de famílias nobres, a entrada forçada na vida religiosa, a inobservância da clausura e da solidão por causa da permanência no convento de mulheres nobres com seu séquito tornam irreconhecíveis estes mosteiros”.
Isto é algo que diz a Verônica Cortona: “Ah, se os religiosos que se afastaram dele [O Verbo], esquecendo os votos que prometeram, aprofundassem isto, observariam a pobreza, a obediência e as demais promessas que fizeram. Ao contrário, contradizem a Palavra da Verdade e fazem ver que é impossível observar os mandamentos porque não aprofundam a doçura e a suavidade que nela se encontram. Se chegassem a conhecer que leve é o fardo de Deus, o levariam com um desejo imenso. A carga que Deus nos dá não é senão a observância de seus mandamentos, que consistem todos em amar”[15].
A Irmã Catarina de Ricci, lhe diz: “não nos deixemos vencer pelas esposas do mundo, que tratam de assemelhar-se em tudo a seus esposos e se esforçam para compreender a vontade deles. Assim nós devemos fazer: parecer-nos cada vez mais com nosso esposo crucificado, Jesus Cristo, e tratar de fazer sua vontade”. E vê claramente como também as monjas de clausura fazer apostolado por meio da oração e mediante os sacrifícios e em sua imolação dentro do mosteiro, porque “se Deus é comunicativo, também nós devemos ser comunicativas para comunicar as iluminações que recebemos de Deus, especialmente as que podem ajudar a levar até Ele suas criaturas. Devemos recordar e ter em mente o que disse o enamorado Paulo: chorai com os que choram, alegrai-vos com os que estão alegres e tornar-se fraco com os fracos[16]” (Rm 12,15).
VI- CONCLUSÃO
Maria Madalena sentiu-se “instigada pelo Espírito Santo, forçada e impelida pelo Verbo humanado[17]” a trabalhar pela renovação da Igreja. Era consciente que, para levar a caba esta renovação, teria que começar pela renovação da mente e do coração. Seria necessário deixar de lado toda comodidade, vanglória e superficialidade, para poder dedicar por completo às coisas espirituais e atender devidamente às almas[18]. Ela, encerrada em seu mosteiro, “sofreu em seu corpo martirizado e em sua alma apaixonada, as dores de Cristo crucificado”. Imolou-se no silêncio do mosteiro como vítima voluntária e grata a Deus.
Maria Madalena, mesmo sendo uma perfeita contemplativa, que inclusive chegava a beijar os muros do seu mosteiro, sentia também o atrativo apostólico e missionário em sumo grau. Como o amor a Deus é, por sua natureza, contagioso, não se pode, diz ela, amar sozinho a Jesus, porque “o verdadeiro amante não se contenta em amar sozinho o seu amado, mas deseja torna-lo conhecido e amado por todas as criaturas”. Ela estivera disposta a deixar o mosteiro para ir às missões e trabalhar mais diretamente na conversão dos povos.
Sendo como nós, membros de um pós-concílio, como ela foi, sua doutrina é muito atual. Toda renovação, para que seja autêntica, deve começar sempre pela conversão individual de todos e de cada um dos membros do Povo de Deus.

NOTAS:

[1] Neste mosteiro era guardado o corpo de Maria Baguesi, terceira dominicana falecida em 1577, que estava muito unida ao mosteiro por vínculos de irmandade espiritual. Maria Madalena lhe atribuiu sua cura depois da profissão.
[2] Assim ela chamava Santo Agostinho.
[3] Pregador e escritor ascético (1452-1498). Em São Marcos de Florença começou uma apaixonada pregação com espírito de inflexível penitência e de luta contra a imoralidade. Expulsos os Médices, favoreceu a reforma da constituição florentina aprovando leis a favor do povo. Alexandre VI, ao qual havia atacado com palavras duras, o excomungou. Finalmente o povo, incitado por seus adversários, invadiu o convento e o entregou ao tribunal da República. Condenado a morrer enforcado, teve seu cadáver queimado.
[4] Em alguns destes aspectos se vê bastante semelhança com a vida que se vivia na Encarnação quando ingressou Santa Teresa. Este ambiente de relaxamento é o que motivará sua reforma.
[5] Nota: Nisto creio que se dá uma grande diferença com Santa Teresa de Jesus, que estava muito a par de tudo o que passava no mundo e lhe doíam de maneira especial os males que sofria a Igreja, da parte dos Luteranos.
[6] Entre outras coisas cita também São Jerônimo: “deve, como uma criança de um ano, estar disposto a ser corrigido” e deve ser humilde, agindo sempre com benignidade e sem deixar-se levar por um trato especial com seus parentes ( em: Extasis, amor y renvación. Clásicos de espiritualidade 12, BAC. p. 237)
[7] Extasis, amor y renovación, p. 272.
[8] Ibidem, p. 272
[9] Ibidem, p. 260
[10] Ibidem, 289
[11] Ibidem, 290.296
[12] Cfr. Ib. págs. 242.253.255.262.
[13] Talvez nos chame a atenção o fato de não escrever aos Carmelitas. Isto tem uma explicação. Nos primeiros anos, o convento estava ligado aos Carmelitas, porém num momento determinado o Pe. Provincial destituiu o Padre que era encarregado delas, e como nem ele nem as monjas aceitassem esta disposição, o Padre em questão desligou-as da Ordem e ele mesmo passou a depender exclusivamente do bispo. Deu-se, pois, uma ruptura com nossa Ordem. Atualmente, tem acontecido certa aproximação ao ponto do mosteiro já estar inscrito no “Status Ordinis”.
[14] Ibidem, pág. 255-256.
[15] Ibidem, pág. 278.
[16] Ibidem, pág. 284-285.
[17] Ibidem, pág. 248.
[18] Ibidem, pág. 250.251