Santa Teresa de Jesus e sua família

Santa Teresa e sua Família
Por Frei Geraldo de Araújo Lima, O.Carm.
Santa Teresa de Jesus nasceu em Ávila (Espanha) em 1515. Por conseguinte, nós comemoramos, neste ano de 2015, os quinhentos anos do seu nascimento. Naturalmente, este será um ano teresiano para nós, carmelitas. De minha parte, já comecei a celebrá-lo com o meu artigo anterior, intitulado “Por que amo Teresa”.
Para conhecermos uma pessoa, ajuda-nos muito conhecer a sua família, já que “eu sou eu e as minhas circunstâncias” (Ortega y Gasset). Para isso, vamos fazer uma breve incursão na família da nossa Santa carmelita.
Seu pai chamava-se Alonso de Cepeda, de família nobre e nobre de caráter. Os traços definidos do seu rosto eram o reflexo de um espírito não menos definido. Seus gestos eram amplos e lentos; seu aspecto, meditativo e um tanto seco. A dignidade pessoal era um culto arraigado em sua alma de fidalgo. Sua retidão moral era excepcional. A própria Teresa o descreve na sua autobiografia: “Meu pai era um homem muito caridoso com os pobres, com os enfermos e com os empregados. Era muito sincero. Ninguém jamais o viu praguejar ou murmurar. Era de extrema honestidade”.
Dom Alonso casou-se com Catarina del Peso, com a qual teve dois filhos: Maria e João. Porém, Catarina morreu logo depois, em 1507, quando ainda amamentava o pequenino João. Dois anos depois, Dom Alonso se casou com Beatriz de Ahumada, quinze anos mais nova do que ele. Beatriz lhe deu à luz dez filhos: oito meninos e duas meninas. Eram ao todo doze filhos. Teresa era exatamente a do meio, a sexta por ordem de idade.
Nossa Santa, de igual modo, traça o perfil de sua mãe: “Minha mãe também tinha muitas virtudes e passou a vida com grandes enfermidades. Embora muito bela, nunca deu ensejo a que se pensasse ser ela vaidosa, porque, apesar de morrer aos 33 anos, seu traje já era o de uma pessoa de muita idade. Muito pacífica e de grande entendimento. Foram enormes os trabalhos enquanto viveu. Morreu muito cristãmente”.
Podemos imaginar as dificuldades que eles tiveram para dar conta de uma família tão numerosa. Apesar de viverem no século XVI, conhecido como o “século de ouro” da Espanha, a situação interna da sociedade espanhola atravessava momentos críticos. A política belicosa do imperador Carlos V esgotava as reservas da nação. A organização deficiente da indústria e do comércio, a carestia da vida, a dispersão dos espanhóis e os compromissos com o estrangeiro eram uma ameaça que inquietava a classe média. A maioria dos fidalgos não tinha outro futuro senão as armas. A Espanha, como uma floração primaveril, arrojava heróis para todos os lados, sem pensar no desgaste da nação. Por isso, dos nove filhos homens de Dom Alonso, apenas um não se alistou no exército: João de Ahumada, que entrou na Ordem dominicana e morreu bem jovem, quando ainda era noviço. E dos oito restantes, apenas um não veio para o continente americano: João de Cepeda, filho do primeiro matrimônio, o mais velho de todos, que se alistou muito cedo no exército do imperador na Itália, morrendo logo depois na guerra da África.
Obviamente, tal problema não afetou as três filhas. Maria, a mais velha, e Joana, a caçula, casaram-se e constituíram família; e Teresa entrou no Carmelo aos vinte anos.
Vamos acompanhar os passos dos sete irmãos, que cruzaram o Oceano Atlântico, em busca de dias melhores. A partida de seus irmãos deixava um imenso vazio no casarão de Dom Alonso, e mais ainda no coração de Teresa. Cada despedida era emocionante, especialmente a de Rodrigo, que era o irmão de sua alma, que havia estado sempre unido a ela, nas ilusões infantis do martírio e nas quimeras cavalheirescas. Quando, anos mais tarde, chegou a notícia da morte de Rodrigo, Teresa disse sem titubear que o considerava “um mártir da fé, por haver morrido em defesa da fé”.
Fernando, o filho mais velho do segundo matrimônio, embarcou para o Peru em 1532. A sorte o favoreceu, pois o seu nome aparece em 1547 como o regente da vila de Pasto, na Colômbia, onde faleceu em 1565.
Rodrigo – o mais apegado a Teresa nos tempos da infância – partiu para o Rio de la Plata em 1535. Atravessou a cordilheira dos Andes e chegou ao Chile, onde morreu em 1557, lutando contra os araucanos.
Jerônimo partiu para o Peru em 1540, e morreu no Panamá em 1575, quando regressava à Espanha.
Lourenço também partiu para o Peru em 1540. Apesar de gravemente ferido na batalha de Iñaquito, conseguiu prosperar financeiramente e constituir família, retornando à Espanha em 1576, bastante rico.
Agostinho, que era o mais jovem dos homens e também o mais inquieto, embarcou para o Peru em 1546. Em 1581, pobre e arruinado, escreveu a Teresa, falando do seu projeto de regressar à Espanha, a fim de tentar alguma indenização pelos esforços despendidos. Teresa, muito preocupada, escreve a um sobrinho seu que estava no Equador: “Quando esta carta lhe chegar, estará meu irmão Agostinho de Ahumada em caminho, segundo me escreveu. Praza a Deus trazê-lo com segurança. Se ainda não tiver partido, previna-o vossa mercê que, se ele não trouxer meios para se manter, encontrará muita dificuldade e não achará quem lhe dê de comer… Para meu irmão é muito duro empreender, com tanta idade, uma viagem tão perigosa por causa de dinheiro, quando já não deveríamos tratar senão de preparar-nos para o céu”. Pouco tempo depois de seu regresso à pátria, morreu Santa Teresa, no dia 15 de outubro de 1582. Sem nada conseguir em sua terra natal, Agostinho voltou ao continente americano, sob a promessa de ser governador de Tucumán (Argentina); porém faleceu antes de assumir o posto.
Antônio partiu para a América em 1544 e morreu dois anos depois, na batalha de Iñaquito.
Pedro de Ahumada também viajou para a América, mas foi sempre desastrado em tudo. Era a ovelha negra da família. Voltou à pátria viúvo e pobre. Tentou alguma pensão por parte do governo, mas em vão. Enfermo e neurastênico, faminto e meio louco, chegou um dia ao Carmelo de Toledo e se refugiou junto à sua irmã, Teresa. Para sustentá-lo, esta valeu-se do irmão Lourenço, o único que se deu realmente bem na aventura do ultramar. Porém, Pedro infernizou tanto a vida de Lourenço que deixou Teresa muito preocupada. Em longa carta, a Santa procura remediar um pouco a difícil situação. Escreve a Lourenço: “Asseguro-lhe que parece Deus permitir que nos ande a tentar esse pobre homem, para ver até onde chega a nossa caridade”. A seguir, pede que Lourenço continue ajudando financeiramente a Pedro, mas sem o acolher em sua casa: “Suplico a vossa mercê, por amor de Nosso Senhor e para meu sossego, faça-me este favor de não o hospedar em sua casa, por muito que ele rogue e esteja necessitado; porque verdadeiramente, acerca desse desejo de morar com vossa mercê, ele está louco, embora não o esteja para outras coisas”.
Como se pode observar, Teresa situava-se no centro da família não apenas por questão de idade: ela era o verdadeiro esteio da casa! Era, a um tempo, a cabeça pensante, o coração palpitante e as mãos atuantes; e isto tanto para a família de sangue, como para a grande família espiritual do Carmelo, fundada e estruturada por ela. Era e continua sendo pelos séculos afora a Madre Teresa!