Partilha do Postulantado I

Partilha do Postulantado I

“Felizes os que em vós têm sua força e se decidem a partir quais peregrinos!” Sl 83, 6 

Por: Rafael Dorgival Alves Fonsêca Neto, postulante

 

            A vida dos homens e mulheres, seres criados por Deus, é sempre composta por caminhos. A ordem recebida nos primórdios é dada para que encham a terra (cf. Gn 1, 28), e não há como cumprir tal intento sem caminhar, sem peregrinar! Alguns desses caminhos são retos, planos e já na partida pode ser vista a meta, o prêmio esperado que coroa todo o esforço, outros se revestem de espinhos, curvas, pedras e vão exigindo doação e disponibilidade, um verdadeiro ato de consumação e desprendimento de si para que se alcance o alvo!

            Escolhi tal imagem para partilhar um pouco da nossa experiência de Postulantado I, na senda do propósito formativo que estamos recebendo da Província Carmelitana Pernambucana, na Ordem dos Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, deixando tal premissa bem assentada: somos peregrinos!

         O peregrino é, antes de mais nada, aquele que caminha, que se levanta de determinada estrutura que lhe parece cômoda, da sua “zona de conforto”, e parte em busca de um ideal. Se pararmos para analisar nossa vida vocacional, encontraremos esse desejo, esse ímpeto de procurar uma razão que valha a pena e que nos permita viver de uma forma plena. Ninguém deixa sua casa por uma realidade vazia, deixamos nossas estruturas tranquilas por uma estrutura que a cada momento nos pede respostas sérias e desafiadoras, sendo a maior delas a de nos conformarmos a cada instante com o Cristo que nos chama e é a razão da nossa peregrinação!

            Esse foi um tempo em que iniciamos tal caminho: o de seguimento e adequação à proposta de Jesus. Certamente nos vimos como os discípulos de João Batista ao aproximarem-se do Cristo e perguntarem onde ele morava, recebem uma proposta de vida, uma mudança que os inquieta e pede uma resposta séria e concreta: “Vinde e vede!” (Jo 1, 36ss)

        Chegamos a Lucena-PB, peregrinos de quatro estados nordestinos: Paraíba, Ceará, Pernambuco e Sergipe, no intuito de vivenciarmos a primeira etapa da nossa formação inicial, somos a partir do mês de fevereiro desse ano aqueles que batem à porta do Carmelo para aprenderem como vivem, rezam, trabalham e convivem os carmelitas, para que ao final, se conformados melhor à proposta formativa, permanecermos morando com o Senhor e os irmãos! A casa que nos acolhe carrega o nome do grande frade espanhol, radicado no Brasil, Frei José Maria Casanova Magret, O.Carm. que muito se consumiu pela Ordem, pela Província e pelo povo sofrido do nordeste, como esquecer o seu ideal dado às suas irmãs e também a nós, chamados a aprender do seu testemunho: “Ide aonde ninguém quer ir!”

            O tempo aqui vivido foi primeiramente para conhecermos melhor o carisma carmelitano, o “viver em obséquio de Cristo e servi-lo com coração puro e reta consciência”, deixando-nos romper as barreiras que, inseridas em nós pela sociedade pós-moderna na qual fomos (de)formados anteriormente, pedem um pouco de paciência e compromisso com a causa abraçada.

           Na fraternidade precisamos aprender a caminhar como irmãos, peregrinos bem próximos uns dos outros; deixando família, amigos, paróquias e tantas expressões que possuíamos, vimo-nos morando com pessoas diferentes e com o desafio comum: sermos os samaritanos uns dos outros, sermos próximos para bem vivermos e nos adequarmos ao que pede a formação. Foi um tempo oportuno para conhecermo-nos uns aos outros e aprendermos na diversidade dos nossos dons, desafio que constantemente nos acompanhará nessa peregrinação comum e mais, caminhando juntos fortalecemos o desejo cristão de sermos reconhecidos pelo amor que nos une, característica fundamental dos discípulos do Mestre (cf. Jo 13, 35). Foi esse amor fraterno que impregnou os primeiros carmelitas, também peregrinos, a viverem bem ao redor da Fonte de Elias e do Oratório mariano que erigiram no Monte Carmelo, irmãos que eram, transpareciam para os que deles se aproximavam esse ideal que, passados oitocentos anos, nos chegou e apresentou-se como um modelo antigo e novo capaz de nos fazer deixar tudo para possuirmos o Tudo, como bem escreveu São João da Cruz!

            Na oração, reaprendemos a todo momento a fazer da nossa vida uma constante “oferta de agradável odor” ao Deus que habita em nós e nos modifica por meio da abertura às suas inspirações, cultivamos um coração aberto a dilatar-se pelo amor à Palavra de Deus pela sua leitura e meditação “dia e noite”. Rezamos com Maria, mãe, irmã e mestra, ela sendo a primeira e fiel discípula, quer nos inserir no discipulado ao seu Filho e nos levar a fazermos sempre o que Ele ensinar e disser! (cf Jo 2, 5) Na Eucaristia fraterna e nas orações que acompanham o nosso ritmo de vida, abrimo-nos ao coração de Jesus que se oferece e nele descansamos as nossas inquietações, o nosso confronto pessoal para bem direcionarmos aquilo que somos para o que Deus é e quer!

            Um desafio considerável que se mostrou a alguns de nós foi o trabalho, pois, ou estávamos acostumados com o trabalho intelectual ou nos eram exigidas tarefas de outras naturezas. Como ensina São Paulo, quem não trabalha torna-se pesado aos outros (cf. 2 Ts 3,4), por isso, aprendemos desde agora que é pelo esforço pessoal e comum que conseguimos avançar melhor, trabalhamos para que não tenhamos uma mente desocupada e passível de investidas severas do inimigo que nos ronda, como também observa a Regra do Carmo em seu capítulo 15. A partir disso, aprendemos a empenharmo-nos para manter a “casa comum” organizada e acolhedora, cuidando de tantos bens naturais que o Senhor quis dispor para nossa utilização!

            Ainda, a nossa missão profética começou a ser vivenciada na Paróquia Sagrado Coração de Jesus Menino, em suas diversas realidades e comunidades, sendo presença terna e contagiante para tantos irmãos e irmãs que necessitam de amparo e luz! Nesse Ano Santo da Misericórdia em que adentramos às portas do Carmelo, foi lá que conseguimos ser “rosto da misericórdia” e exercitarmos tantas obras que nos eram pedidas, dando ouvidos a quem precisava e servindo bem ao Reino de Deus!

            A nossa formação foi bem disciplinada pelo Frei José Adriano Gomes da Silva, O. Carm. que, zeloso na missão que lhe fora confiada, procurou nos apresentar essa proposta de seguimento, indicando luzes para nossa conformação ao carisma da Ordem e ao projeto comunitário, à luz da Ratio e demais instrumentos formativos. Ele foi um importante companheiro dessa nossa caminhada e os seus ensinamentos nos acompanharão sempre!

          Por fim, concluindo o esboço desta nossa peregrinação iniciada, esse “processo de transformação” para conformarmo-nos e afirmarmos com maior convicção: somos carmelitas, entendemos que sermos jovens carmelitas, no século XXI, é revitalizar em nós a chama do amor que abrasou os corações daqueles primeiros eremitas que partindo das suas terras para nos lugares santos fazerem uma experiência com o Deus vivo que lá estava, mas que também estava dentro de cada um deles, peregrinamos buscando encontrar o rosto de Deus! Assim como eles deixaram as suas estruturas cômodas para aderirem à vida evangélica, peregrinamos para encontrar sentido para as nossas existências, recriando em torno da Fonte de Elias aqueles primeiros sentimentos e modificando nosso modo de agir.

         À Virgem mãe do Carmelo, a senhora que nos guia ao Filho e ao Pai, pedimos que nos ajude a perseverarmos e a sempre “caminharmos apressadamente” na senda desta felicidade que é o colocar-se a caminho em busca de Deus, para bem servirmos à Igreja e aos irmãos!

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