Memórias do Carmelo Moçambicano

Por Frei Sérgio Estefane, O.Carm.

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O que podemos trazer das memórias do Carmelo moçambicano é que, antes de mais nada, somos grandes devedores das Irmãs Carmelitas do Sagrado Coração de Jesus, que, desde 1996, juntamente com a nossa Cúria Geral em Roma, com as Províncias da Irlanda, de Pernambuco  e o Comissariado do Zimbábue,  lutaram para tornar possível a nossa presença aqui em Moçambique, o que tornou-se realidade a partir dos meados de agosto de 1997, com a chegada de Frei Amilton Vidotto, O.Carm -não primeiramente a Moçambique, mas ao Comissariado do Zimbábue, onde estudou o inglês, fazendo também o conhecimento da realidade zimbabueana e/ou africana.

Em fevereiro de 1998, chegou também ao Zimbábue o diácono Frei Severino de Castro Freitas, O.Carm ,  acompanhado por Frei Muniz (naquele tempo acabara de ser nomeado Bispo de Guarabira – 1998-2006). Frei Severino e Frei Amilton moraram todo o primeiro semestre de 1998 em Harare, em Comunidades diferentes: Frei Amilton em Hatfield e Frei Severino em Mount Carmel House em Chisipite – Highlands. No segundo semestre, todos moraram em Mutare até ao mês de setembro.

Monsenhor Frei Muniz e a sua comitiva provincial visitaram Moçambique, fazendo uma análise e aprofundamento das propostas do local para o estabelecimento de uma comunidade. Visitaram também as Irmãs Carmelitas do Sagrado Coração de Jesus em Maputo e Nampula. Nessas visitas, os frades conversaram com o Arcebispo da Arquidiocese da Beira, Dom Jaime Pedro Gonçalves, que, atendendo o seu pedido, definiu-lhes entregar a Missão Cristo Rei de Gorongosa, local que facilitava a maior proximidade com os frades do Comissariado do Zimbábue.

A 6 de setembro de 1998, nos foi entregue a Missão Cristo Rei de Gorongosa. E em novembro do mesmo ano, os Freis, Severino de Castro Freitas e Amilton Vidotto, passaram a residir definitivamente nessa localidade, em nome de todos os frades da Província Carmelitana Pernambucana.  Frei Severino de Castro tomou posse como pároco da Missão naquela mesma data.

As Irmãs Carmelitas do Sagrado Coração de Jesus sempre estiveram presentes na vida dos frades, na área da Arquidiocese da Beira.  Verdadeiramente, elas se consagraram e se consagram até os dias atuais a ser uma presença vivificante, humilde, fraterna e serviçal na história do Carmelo Masculino em Moçambique.

Desafios

Depois da tomada de posse na Missão, novos desafios emergiram, aliás, já certamente esperados, visto que a Missão e suas infraestruturas estavam praticamente devastadas, devido à guerra civil que assolou Moçambique durante dezesseis anos. Daí a indispensável colaboração da Cúria Geral e da Província Carmelitana Pernambucana e de outras Províncias, Comissariados e Organizações não governamentais (ONGs, LITLE FLOWER), na luta pela captação de recursos para a reestruturação e reorganização da Residência dos Frades, dos Internatos Masculino e Feminino, da Igreja Paroquial e outras infraestruturas. Essa fase durou um longo período, mas graças a Deus e à Virgem do Carmo, tudo ocorreu de acordo com o projeto sonhado, embora as dificuldades não faltassem. Muitas pessoas de boa vontade ajudaram dentro de suas habilidades e possibilidades.

O florescimento da Missão

Em janeiro de 1999, após a realização do Capítulo Provincial em Pernambuco-Brasil, o Carmelo nordestino foi surpreendido com um fato histórico: Frei Telésforo Machado, O.Carm.,  aos seus 77 anos de vida, decidiu colaborar na “Missão Verde”, em África. A sua presença em Moçambique foi muito exemplar e incentivadora para bastantes jovens, embora muitos não se apercebessem disso.

 Em setembro de 2001, com a realização do Capítulo Geral dos Carmelitas em Roma, Frei João José Costa, O. Carm – o Pe. Prior Provincial, e Frei Rogério Severino de Lima, O. Carm.,  visitaram o Comissariado do Zimbábue e, particularmente,  a Missão de Gorongosa.

Algumas iniciativas foram feitas em parceria, mas em grande parte, o  Frei Amilton Vidotto foi realizando, por meio de seu carisma particular, pelo trabalho social, a sua tarefa inesquecível na vida das comunidades dessa Missão: o trabalho de promoção humana e melhoramentos da qualidade de vida das pessoas. “O irmão foi homem de muitas iniciativas no ambiente da Missão”. Nunca abdicou dessa tarefa e nem se divorciou do seu traço particular de atuar: reabilitou muita coisa, principalmente as estruturas internas da Missão, sempre apoiado nos confrades que estiveram com ele, mas conservando o que lhe é próprio: quem quer não pede; sendo possível, ele mesmo faz. O trabalho missionário da comunidade carmelitana em Moçambique, foi ganhando novas configurações, não apenas com o surgimento de novos sonhos que foram sendo plasmados.

Outros irmãos foram agregando-se à comunidade. Em 2002, os Freis Altamiro Tenório da Paz e Silvio Ferrari, este membro da Província de Santo Elias, chegaram em Gorongosa, onde passaram alguns meses, partindo daí para assumir um outro desafio. Abriram um outro caminho, o caminho da formação, o caminho da itinerância na cidade de Maputo, no dia 19 de setembro de 2002, iniciando o trabalho com as sementes do futuro Carmelo Moçambicano, entre as quais estou eu, que escrevo estas páginas.

O grupo que iniciou o trabalho de formação era composto por quatro jovens (provenientes do centro e norte do país): Santos e Cassiano, de Nampula, e Costa e Fernando, do Dondo e Beira. Logo no primeiro ano, dois (Cassiano e Fernando) deixaram o grupo, restando um grupo de quatro aspirantes: Costa Jambo, Santos Estêvão, Hélder de Arlindo Madeira – da Beira, Sérgio Estefane Simone – do distrito de Maríngue;  estes dois últimos foram alunos internos na missão Cristo Rei Gorongosa.

Nos anos de 2003 a 2004, a Missão Cristo Rei de Gorongosa recebeu quatro frades e uma leiga missionária do Brasil: Frei Aloísio (Pároco), Frei Juracy e  Frei José Cláudio, que permaneceu apenas um ano. A partir daí, declarou-se um processo de transição nas atividades dos Carmelitas em Moçambique: a chegada de Frei Rogério, em 18 de abril de 2004, o retorno de Frei Amilton Vidotto ao Brasil, em 30 de abril de 2004, a chegada da leiga missionária Ivone, em 18 de abril de 2004, o retorno de Frei Aloísio para o Brasil (início de dezembro de 2004), culminando com a decisão do Capítulo da Província Carmelitana de Pernambuco, em janeiro de 2005, de entregarmos os trabalhos de Gongorosa à Arquidiocese da Beira, a 2 de fevereiro do mesmo ano.

Nesse ano de 2005, tivemos a constante visita de um importante trio a fim de consolidar os novos caminhos abertos, orientar os novos rumos do Carmelo Moçambicano em gestação, e conduzi-lo decisivamente para servir a Igreja a partir do carisma próprio do Carmelo. Desse modo, a visita de Pe. James (Ecônomo Geral), do Pe. Scerri (Conselheiro Geral para África) e do Frei Sales (Prior Provincial, em sua primeira visita à África) marcou a nova orientação do nosso trabalho: a formação e o serviço da espiritualidade. No período de 2006-2009 ficamos concentrados  momentaneamente em Maputo, nas Paróquias de Khongolote e Sagrada Família da Machava, contando com os formandos em duas etapas: na Machava, o Postulantado e em Khongolote, Aspirantado. As comunidades eram formadas pelos seguintes frades: Frei Altamiro Tenório da Paz, Frei José Alberto Bezerra, Frei Sergionei (que retornou antes da chegada de Frei Alberto) e Frei Rogério Severino Lima, juntamente com a leiga missionária Ivone Marinho.

Um despertar

No ano de 2008,  fizemos a  retrospectiva de um decênio de história do Carmelo moçambicano. Celebramos festivamente os dez anos de nossa presença em Moçambique, contando com a presença do Prior Geral, Frei Fernando Millan Romeral,  Frei Desiré, o ex-Conselheiro para África, Frei José Roberval Mendes Pereira, os frades da Delegação, formandos e Ivone. Foi um momento ímpar de um verdadeiro despertar de nossa missão e compromisso com o povo e os jovens  que almejam beber da nossa espiritualidade.

Na tentativa de buscar servir melhor ao Povo a que nos foi confiado nas terras moçambicanas, a Província Carmelitana Pernambucana sonhou em enviar novos frades, foram eles: Freis Osman, Rutherlan, José Francisco,  Juracy , que voltara ao Brasil devido ao acidente de carro, Adalgizo, Damião Torquato, Romero Lima, Amilton Vidotto. Além disso, a Delegação ousou também em estender-se para o norte do País (Nampula-Meconta). O projeto não foi de bom gosto aos olhos de Deus, e cada frade, à sua sorte e apresentando motivos pessoais, começou a retornar ao Brasil, o que culminou com a entrega precoce da Missão de Meconta, a 2 de março de 2014, pelo diácono Frei Sérgio Estefane Simone, que acabara de chegar a cinco meses naquela missão.

Apesar dos altos e baixos de nossa história, podemos perceber que a graça de Deus nunca deixou de agir em e entre nós, pois, como se costuma dizer, a criação e a redenção vão juntas de mão dadas.  Em outras palavras, nossas vidas estão impregnadas da presença amorosa, vivificante e salvadora de Deus.  No lugar de procurar um centro escondido e distante, esse centro tem se aproximado de nós ao ponto de, renovar constantemente nossos sonhos e esperanças, e, apesar da fragilidade da condição humana, continuar a conduzir a sua obra. Nesse sentido, é sinal de esperança a ordenação, como muitos gostam de dizer, do “primeiro carmelita moçambicano”, que emitiu os Votos Perpétuos a 26 de maio de 2013 no Brasil e  ordenou-se diácono a 12 de janeiro de 2014 na Cidade de Nampula, em Moçambique. Minha ordenação presbiteral acontecerá dia 3 de agosto de 2014.

Diante dos caminhos percorridos, vê-se que a história de desafios, lutas, conquistas e perspectivas, há quase quinze anos de nossa existência aqui em Moçambique, não chegou ainda ao seu auge. O Carmelo moçambicano parece representar uma viagem heroica, inclusive épica, até Deus, pelos poucos que nestes últimos anos vivem e testemunham o carisma com uma intensidade humilde e serviçal. Acredito que, na viagem que estamos fazendo no atual Carmelo moçambicano, tão somente os alpinistas experientes na humildade, zelo e plena consciência missionária Ad Gentes são os que se atrevem a galgar sua altura.

 FOTOS DO CONVENTO EM MAPUTO:

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CONVENTO EM MAPUTO

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CAPELA DO CONVENTO