Carta sobre a situação do Congo, onde há presença de Carmelitas

À COMISSÃO DE JUSTIÇA E PAZ, INTEGRAÇÃO E CRIAÇÃO DA USG-UISG
GRITO DE ANGÚSTIA DOS CONSELHOS GERAIS DOS RELIGIOSOS ANTE OS MASSACRES DESUMANOS NA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO, ESPECIALMENTE NA DIOCESE DE BUTEMBO BENI
1- Introdução
Nós, membros dos conselhos gerais das diversas ordens e congregações presentes na diocese de Butembo Beni, na República Democrática do Congo, tivemos conhecimento dos recentes distúrbios e massacres na região da Diocese de Butembo Beni e em seus arredores. Ficamos abismados ao nos inteirar das espantosas matanças de civis desarmados.
Queridos irmãos e irmãs, membros da Comissão de Justiça e Paz, Integração e Criação, lhes dirigimos esta mensagem em nome deste martirizado povo para que ecoe o nosso grito.
2- A dignidade da pessoa humana provém de Deus e é inviolável
Denunciamos e condenamos a brutalidade dos assassinatos de crianças e adultos nas regiões da Diocese de Butembo Beni. Redigimos este comunicado numa perspectiva de fé. Cada pessoa foi criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Os massacres da população, que se abatem sobre a região de Mbau, na Diocese de Butembo Beni, são claramente uma ofensa contra a humanidade.
3- O contexto
A República Democrática do Congo (RDC) nunca gozou de uma paz total, desde que obteve da Bélgica sua independência nacional, em 30 de junho de 1960. Como consequência de uma sucessão de conflitos, numerosas pessoas se deslocaram para o interior ou saíram para o exílio, enquanto outras pagaram com a própria vida. As causas profundas desses conflitos são complexas: vão desde questões ligadas à governabilidade até modos desiguais e sombrios de exploração das abundantes e ricas fontes de recursos econômicos do país. No curso dos últimos decênios, o conflito congolês envolveu diversos grupos militares, locais e estrangeiros, entre os quais se encontram as Forças Democráticas Aliadas, o Exército Nacional de Libertação da Uganda, o M-23, as FDLR, os Mai-Mai.  Muitos grupos rebeldes e forças armadas levaram a cabo suas operações nas regiões orientais da RDC, provocando desastres bem documentados, brutalidades, deslocamentos massivos da população, raptos, violações e matanças de tipo genocida. Entre as pessoas sequestradas encontram-se três religiosos sacerdotes.Apesar do contato feito com a Missão das Nações Unidas na RDC, para ajudar e proteger a vida dos civis, a situação segue sendo crítica.

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4- Massacres ignominiosos
Todos os esforços empreendidos para trazer a paz tendem a ser contaminados pelos germes de divisão, tensões e lutas. Os massacres que falamos aconteceram em outubro de 2014 e março de 2015. Segundo as informações de que dispomos, cidadãos pacíficos e desarmados foram arrancados de suas casas e assassinados no território de Beni. Incursões noturnas de homens armados produziram o rapto ou assassinato de pessoas. Também existe a pilhagem, o roubo de dinheiro e rebanhos. Essas matanças são horríveis: alguns são degolados, braços de crianças são cortados, mulheres são violadas e famílias inteiras massacradas. As vítimas foram brutalmente despedaçadas com foices, machados ou facas. Estes massacres alcançaram o território da Diocese de Bunia, desde janeiro de 2015. Até a data, mais de 400 pessoas foram assassinadas com a mesma atrocidade.

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5- Consequências dos massacres
Essa violência trouxe graves consequências: penúria alimentar, interrupção ou mal funcionamento dos serviços médicos, deslocamento da população, migração, falta de serviços psicossociais, interrupção dos serviços educativos, etc. A vida das famílias fica totalmente perturbada ou destruída. É inadmissível que a instabilidade da RDC e as matanças deste tipo perdurem e que o país continue afundado numa espiral de violência. É evidente que a população da RDC já sofre há muito tempo. Continua vivendo na precariedade, pobreza, instabilidade, quando o país é dotado de ricos recursos naturais aos quais só os ambiciosos, ou quem possui armas, têm acesso. Além dos massacres, há também, sem dúvida alguma, a destruição do ecossistema dessa região, que conta com a segunda selva virgem mundial, depois da Amazônia.
 6- Um grito de angústia para toda comunidade internacional
 A situação da RDC é demasiado complexa para que possamos nos envolver. Apesar disso, em nome de Deus, em nome deste longo sofrimento do povo congolês, apelamos ao Governo da República Democrática do Congo para que dê prioridade ao seu povo. Pedimos-lhe que não firme acordos, sem antes ter segurança de que se permita a distribuição equitativa dos recursos econômicos em proveito de todo o povo congolês. Num país tão rico como o Congo, o povo só acreditará em seu governo quando vislumbrar uma mudança positiva na vida das pessoas, quando for desenvolvida uma infraestrutura de estradas, quando houver vias de comunicação entre os cidadãos numa atmosfera de segurança e liberdade concretas. Em nome do povo congolês, que sofre há muito tempo, apelamos à ONU, ao Conselho de Segurança e à Missão das Nações Unidas na RDC, para que respondam à situação crítica das populações do Congo, e para que ajudem o Governo para que alcance uma paz justa e duradoura. Apelamos também à União Africana, às instituições da SADC e COMESA para que se comprometam a trabalhar pela estabilidade do Congo, de maneira que este “gigante adormecido” consiga despertar e contribua para o crescimento e desenvolvimento, não só das populações da região, mas de todo o subcontinente, e inclusive de toda a África.
Queridos irmãos e irmãs, membros da Comissão de Justiça e Paz, da Integridade da Criação, quiséramos, através de vocês, fazer uma chamada de atenção à comunidade internacional, aos governos, às organizações humanitárias, e, por suposto, às multinacionais que que se beneficiam com a exploração dos recursos do Congo, para que atendam nosso apelo em vista de uma investigação internacional transparente sobre os massacres, de maneira tal que a impunidade não tenha a última palavra.
Agradecemos-lhes pela atenção que deram a esta carta, dando a conhecer este conflito ainda em curso.
Que Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja Páscoa logo celebraremos, os acompanhe e os abençoe.
Roma, 29 de março de 2015.
Membros dos Conselhos Gerais das Congregações presentes no Congo:
Agostinianos da Assunção, ou Assuncionistas,
Irmãs da Sagrada Família de Spoleto
Irmãs da Ordem da Companhia de Maria Senhora Nossa,
Irmãs de Maria Reparadora,
Ordem da Santa Cruz,
Missionários da África (Padres Brancos),
Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus,
Clérigos Regulares Menores, ou Carraciolinos,
Monges Silvestrinos, da Ordem de São Bento,
Ordem do Carmo