A MISSÃO: UMA EXPERIÊNCIA QUE TRANSFORMA

A MISSÃO: UMA EXPERIÊNCIA QUE TRANSFORMA
“Sempre tive a convicção que o Senhor
tinha-me preparado no Carmelo algo
que só ali poderia encontrar”.
(Edith Stein)
 Concluindo o mês de Agosto, que no Brasil é dedicado à reflexão vocacional, gostaria de partilhar com os irmãos e irmãs, amigos e seguidores da vida da Província Carmelitana de Pernambuco, minha experiência na missão. Embora em Moçambique, este não seja um mês vocacional, espero poder conduzir a todos, os de lá (Brasil),  e os de cá (Moçambique), à uma renovada consciência vocacional- missionária.
A missão começou comigo e, creio começa com todos, quando deixamos cair dentro de nós, dos nossos corações as barreiras e limites que nos impedem de perceber que o mundo é muito maior do que as nossas concepções, conceitos e preconceitos e que o outro é diferente e não inferior a nós. Ademais, é necessário coragem, porque é preciso superar os medos, renunciar as seguranças, sair das nossas zonas de conforto e, sobretudo, confiar na palavra de outro que nos motiva a sair, mas também na Palavra do totalmente “Outro”, que diz: “vai, eu te envio”. Esta certamente, foi a experiência pela qual passaram Abraão, nosso pai na fé (cf Gn 12, 1-3), Moisés (Ex 3,10), o profeta Elias, nosso Pai (1Rs 17, 2ss), Maria, nossa Mãe (Lc 1, 26-38) e tantas outras personagens bíblicas ou da história da Igreja. Esta foi também a experiência que fui convidado a fazer em Janeiro de 2014, por ocasião da celebração do nosso Capítulo Provincial, quando, terminado um triênio conturbado na minha vida religiosa, esperava voltar para a minha Província de origem e minha terra, para o meu povo e minha parentela. Contudo, fui convidado à uma experiência não planejada, e eu, com o coração despedaçado, mas confiando na Palavra, parti para o desconhecido, e no entanto, “o Senhor tinha-me preparado no Carmelo (moçambicano) algo que só ali poderia encontrar”
Chegamos à Maputo, Frei Altamiro e eu, no dia 22 de Março de 2014 e encontramos no convento São José de Khongolote, sobretudo,  uma comunidade, o Carmelo Jovem moçambicano – como se costuma falar por aqui – que para além de todos os desafios encontrados, insiste e persiste com a presença carmelitana na também jovem pátria de Moçambique. Com o passar dos dias e dos meses tive que sofrer outra profunda conversão, pois necessitei alargar ainda mais a minha concepção missionária e entender que a missão é muito mais do que o mero trabalho apostólico até à exaustão física e espiritual e perceber que a minha missão nestas terras, talvez, seria a mesma de Santa Teresinha: “fazer Deus amado como eu o amo”. Aqui não fazemos muitas coisas, além de estar e ser presença de Deus no meio do povo, testemunhando com uma vida de intensa e regular oração, fraternidade e serviço na paróquia Santa Maria, Mãe de Deus de Khongolote, a nós confiada.
Como tarefas específicas, ajudo na animação da Delegação, um trabalho desafiante, mas ao mesmo tempo gratificante, uma vez que conto com a colaboração de uma comunidade comprometida: os frades junioristas e o Frei Sérgio, nosso primeiro sacerdote moçambicano. Os estudantes, não obstante as atividades acadêmicas que são intensas e exigentes, assumem com muita responsabilidade as tarefas comunitárias e levam avante, com o seu dinamismo próprio, a Delegação. Depositamos neles a nossa confiança e estamos cheios de esperança de que corresponderão, dando sempre o melhor de si mesmos para o Reino de Deus e o Carmelo. Ademais, acompanho o postulantado, desde a minha chegada, e o aspirantado, a partir do presente ano. Trata-se de um trabalho com o qual me identifico e que, portanto, faço com prazer. Outrossim, encontro facilidade pela abertura e docilidade dos jovens que batem à nossa porta e se interessam em experimentar nossa vida. As limitações que encontro são as minhas,  a nível pessoal, e as dificuldades de diferença cultural que se tornam desafios no relacionamento e condução do grupo.
Contudo, o que quero destacar da experiência moçambicana é, sobretudo, o trabalho e a partilha de vida que fazemos com o povo de Deus na paróquia. O que se percebe nos rostos, expressões e realidade é a situação de empobrecimento da maioria,  gerada pela injustiça e pela ação gananciosa de poucos ricos que só pensam nos seus interesses pessoais e deixam a grande maioria privada do necessário para viver dignamente. Moçambique, como o Brasil, tem riquezas e possibilidades que se usadas em benefício do seu próprio povo, amenizaria tantas situações-limite que existem. No entanto, o que se observa é um jogo de interesse e busca de proveito pessoal que faz toda a nação sofrer miseravelmente e o país ser vendido aos interesses estrangeiros, exportando toda sua riqueza e importando miséria, exploração e sofrimento ao moçambicano. Não obstante esta realidade, o povo é, antes de tudo, forte. São homens e mulheres que não se deixam vencer pelo mal, mas lutam virilmente pela superação e buscam na fé e na alegria a força necessária para continuar a difícil arte de viver. Os jovens são de uma capacidade intelectual extraordinária, faltando-lhes apenas oportunidades de se projetarem e realizarem o sonho de uma “vida digna de ser vivida”. O moçambicano em geral, vive a sua fé de maneira viva e encarnada, expressando na liturgia, pela dança, cânticos e alaridos a esperança de novos Céus e uma terra nova, onde brote a justiça. Na celebração da Páscoa do Senhor, sente-se intensamente a força libertadora da Ressurreição e o poder de Deus que faz o justo viver por sua fé. Além disso, é um povo extremamente acolhedor e imensamente agradecido pela nossa presença em seu meio, mesmo com nossas inconstâncias e frequentes mudanças de pároco.
Enfim, para concluir este testemunho com as palavras daquela com a qual o iniciei, gostaria de dizer que “há determinados lugares, ermos ou não, em que Deus se digna conceder graças à alma”. Eu tenho certeza de que um destes lugares é a missão e o Carmelo de São José em Kongolote/Moçambique. Por isso, seja Deus para sempre bendito.
Frei Genildo Mário de Queiroz, O. Carm.

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